Um mês de blog, e a história de Amélia

“Nem serva, nem objeto, já não quer ser o outro, hoje ela é o também” – Pitty

Em um mês de blog, a postagem mais visitada foi a primeira crônica: “A rotina da mulher machista” que explica em partes questões discutidas (ou que futuramente serão discutidas) aqui no blog, lembrando que, Maria, a personagem da crônica, é uma mulher que não se deu a opção de escolha, portanto, ela é dona de casa por submissão, não opção, e como já disse aqui, o feminismo ressalta o direito de escolha.

O que inspirou a criação e o nome do blog, Amélia é a personagem de suas famosas músicas. A primeira, me passava uma ideia completamente negativa do nome, “Ai que saudade da Amélia”, composta por Ataulpho Alves e Mário Lago reclama de mulheres feministas, que mudaram sua forma de agir, e fala sobre a falta que faz uma mulher submissa, que não tinha vaidade e dependia de um homem para viver, até mesmo para comer. Na mesma época da música, a marca de brinquedos Estrela, lançou uma boneca com o nome de Amélia, apelidada de Amélinha, e assim como a Barbie e a Susi, ela vinha com acessórios, mas não era um jaleco de enfermeira, ou um carro, ela vinha com tábua de passar, vassoura e outros utensílios domésticos.

Eis que lendo sobre a origem da música, encontrei um questionamento, a tal Amélia realmente existiu, chamava-se Amélia Ferreira, e sim, cozinhava, passava e limpava como nenhuma outra, mas também trabalhava dobrado na casa da cantora Aracy de Almeida, (amiga de Alves e Lago), para sustentar os 13 filhos, e ainda não perdia um bloco de carnaval, dizia que se não se divertisse ia atrofiar.

Ter 13 filhos e viver com uma vassoura na mão não é os planos da mulher moderna, mas então, o que Amélia tem a ver com o feminismo?

Mesmo conhecendo sua história, não achava que a música fazia jus a mulher que ela era, não só os compositores da música não conseguiram colocar em palavras o verdadeiro valor de Amélia, mas as pessoas que conviviam com ela, em uma dessas histórias, se diz que um irmão de Aracy dizia sempre que alguma mulher não se mostrava prendada o suficiente: “Ai, a Amélia! Aquilo sim é que era mulher! Lavava, engomava, cozinhava e não reclamava”. Lembravam seus dotes, mas não lembravam suas escolhas, é por isso que a música ganhou uma conotação tão negativa e era (e ainda é) muito criticada por feministas.

Mas é esta postura de escolher trabalhar para cuidar dos filhos (e conseguir), e ainda assim querer se divertir, que tem a ver com a mulher moderna, a mulher para qual eu queria escrever. A mulher que escolhe não ter filhos, ou a mulher que escolhe ficar em casa para cuidar dos filhos que escolheu ter, ou ainda, a mulher que quer ter filhos, trabalha, e ainda consegue administrar sua família e ainda se diverte. Diferente de Maria, a personagem da crônica, que só atendia as vontades do marido, e antes disso, as da mãe e dos padrões da sociedade para conseguir arrumar um marido, um ciclo de vida que a tornou submissa, julgadora e infeliz.

Quando ouvi pela primeira vez a outra música que me inspirou, Desconstruindo Amélia, da cantora Pitty, pensei: finalmente uma música que faz jus a Amélia, uma mulher que um dia acordou e resolveu não se submeter a nada, a fazer as próprias escolhas e a mudar, como ela conta na letra.

Pitty em ensaio fotográfico de 2008
Pitty em ensaio fotográfico de 2008

Pesquisei muito por palavras da própria Pitty, que comprovassem que aquela Amélia de sua música era a mesma da Amélia da música de Mario Lago, ou se foi inspirada nela, mas pelo que li, nunca achei fatos que comprovassem isso, mas as fãs da cantora adotaram a música como um hino feminista, e sempre que tocada ao vivo em seu show, as meninas tiram a camisa, mostram o sutiã e cantam em tom de protesto.

A verdade é que, é esta Amélia que queremos ser hoje, é para mulheres que querem ser como Amélia que quero escrever, a mulher que pensa, discute e escolhe.

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3 comentários sobre “Um mês de blog, e a história de Amélia

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