Prendada não, independente!

Outro dia resolvi fazer arroz para toda a família, e o resultado não poderia ter sido mais decepcionante. Ficou papado, sem gosto, sem “cor”. E todos, sem apetite diante dele. O episódio me fez lembrar de outra vez que fiz arroz, estava sozinha com meu namorado na casa dele e sem grana pra pedir comida, lá vamos nós nos arriscar na cozinha. Aquele dia, acertei o ponto do arroz, exceto pelo fato de ter esquecido de adicionar o sal. Mas o estrogonofe que eu fiz deu pra ser jogado por cima e resolveu tudo.

Mesmo ficando “comível”, preferi jogar o arroz fora no fim do dia, “Imagina se sua avó chega e vê essa comida horrível?”, argumentei pro meu namorado. Sim, eu estava com medo de ser julgada uma companheira ruim pela família dele, simplesmente por não saber cozinhar.

Assim como eu achava que minha mãe não gostava de mim quando eu era criança, de tanto que ela me criticava porque eu queria ir pra escola sem pentear o cabelo, fazer as unhas e usando all star rasgado, enquanto minhas amiguinhas iam todas arrumadinhas.

Com o tempo, comecei a me interessar por me arrumar, é claro, fui ficando mais madura e comecei a me interessar por aquele papo de meninos e namoro. Claro que isso era uma influência machista que sofremos até hoje, nos encaixarmos nos padrões de beleza para os outros, não para nós mesmas. Mas eu não sabia disso aos 12 anos de idade, nem minha mãe, nem minha avó e menos ainda as revistas femininas que eu lia me explicaram isso.

Posso não ter aprendido a fazer minhas próprias unhas até hoje, mas não me importo, eu as faço como consigo, quando sinto vontade e tenho tempo. Posso não ser uma especialista em penteados, mas cuido do meu cabelo suficientemente para que fiquem bonitos e saudáveis, por mim.

O que tudo isso tem a ver com o arroz? Bom, isso tudo tem a ver na verdade, com a minha independência. Apesar de ter ficado chateada por ter servido um arroz papado para minha família, fiquei orgulhosa por tê-lo feito, parece pouca coisa, a maioria das mulheres conseguem fazer arroz de olhos fechados, mas eu não, e eu não aprendi com minha mãe ou avó, na verdade, vi a receita no Papo de Homem, e meu pai me ajudou a cozinhar pela primeira vez. Por isso que para mim foi uma grande atitude, uma atitude de quem não espera alguém prendada assumir, uma atitude de quem quer sair das amarras de casa e ir morar sozinha. Foi uma atitude pequena, independente.

Isso me ajuda a saber (e respirar aliviada) que não preciso ser prendada para ter uma casa, um marido ou ser bonita. Não preciso saber fazer arroz para agradar a ninguém, mas sim para ajudar e alimentar.

A mulher de hoje, aquela que é moderna, é  também independente. Ela cozinha se ela quer, ela cuida se ela quer, mas trabalha, luta e ainda vive linda do jeito dela, do jeito que ela quer.

Amor, não sou prendada: 

“Não sou machista, até ajudo minha mulher em casa”. Este tipo de comentário é um dos mais machistas que eu escuto, e o pior é quando a mulher concorda com ele.

Não é disso que precisamos, de um cara que desce de seu trono, o enorme sofá da sala e faz – ó, que grande ato – o favor de ajudar a mulher nas suas obrigações. Não aceite menos do que “Vamos dividir as tarefas de casa”. Mesmo que a sua escolha seja ser dona de casa e mãe 24 horas por dia, ainda assim, o homem tem suas obrigações, como usuário daquele espaço, e como seu companheiro.

Outra coisa que me ajuda a despreocupar, é o fato de eu namorar um cara legal que pode me ajudar, e se não for assim, não rola.

Fotos: Karoline Gomes

Foto: Karoline Gomes

Já terminei namoro pelo simples (ou não) motivo do cara achar que eu tinha que ficar em casa cuidando dos filhos e lavando louça, enquanto ele trabalhava. Eu quero ter filhos e me dedicar a eles, mas nunca abandonaria completamente minha carreira. Fora que uma família em construção funciona muito melhor com a presença do homem ajudando nos afazeres da casa.

A divisão de tarefas é importante pois não torna nenhum dos dois dependentes, nem a mulher depende de suas habilidades (principalmente quando ela não as têm), e o homem não depende da mulher, nem para coisas simples como tirar uma toalha molhada da cama, até grandes paços como fazer o jantar quando estiver com fome.

Mamãe, não sou prendada:

Claro que eu gostaria de comer uma comida decente quando estou sozinha e preciso cozinhar, as vezes até acerto o ponto, mas na maioria das vezes sai aquela meleca já descrita.

Por muito tempo senti uma certa pressão e falta da minha mãe em casa, pois sempre que eu dava uma mancada não só na comida, mas passando roupa, por exemplo, ouvia a repressão dela, mas ao mesmo tempo, ela não sentava comigo e explicava. Assim como quando reclama das minhas unhas, mas não me ensinava a fazê-las.

Foi assim por uma boa parte da minha vida, até que decidi parar de esperar este apoio materno e descobrir as coisas por mim mesma, aprender, ler, me virar sozinha, como diríamos coloquialmente.

Hoje não sinto mais falta disso, me considero mulher feita, de opinião formada, mas isso não deixa de martelar na minha cabeça para um futuro. Quando penso no futuro, onde terei filhos, imagino-me sempre presente, conversando e lidando com seus problemas, sempre com aquela dose de cuidado para não me apegar e deixar as crianças mimadas, dependentes ou até eu mesma me tornar uma controladora preocupada.

Baseado no que vivo, ainda não quero tornar meus filhos prendados, se forem, legal, puxaram a avó ou algo parecido. Se não forem, eles estarão aprendendo a ser independentes.

Ei, machismo, não sou prendada: 

Tento não culpar minha mãe por ter faltado com a “obrigação” de me ensinar tantas coisas. Ela sempre se dividiu entre horas e horas de trabalho e a casa, além de ter tido uma edução baseada no machismo, sem mesmo saber. Além de ter sido forçada a ser prendada cuidando dos quatro irmãos mais novos, depois deles, meu irmão e de repente, ela se deparou com uma menina para cuidar, e agora?

Resolvi dizer não aos padrões que a sociedade patriarcal exige, a gente vive sem ser prendada, basta ser independente.

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3 comentários sobre “Prendada não, independente!

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