A mulher precisa de religião?

A intenção do texto é questionar a relação da mulher com o ateísmo, tomando como gancho e inspiração as declarações de Daniela Mercury, porém ressalto que ela nunca se assumiu atéia, apenas contra religiões.

No último sábado (24), a cantora Daniela Mercury anunciou em uma coletiva de imprensa, ao lado de sua esposa, a jornalista Malu Verçosa que lançará um livro contando a história do romance das duas. “Eu vou colocar um olhar um pouco mais poético disso tudo e ela, que é jornalista, apesar dela ter uma sensibilidade enorme, e seu texto ter muita emoção, a gente lança com o mesmo compromisso de uma atitude política, mas o amor é que é a grande revolução”.

Foto: Divulgação/Terra
Foto: Divulgação/Terra

Esta revolução prometida é contra as ideias das religiões católica e evangélica. Daniela é direta ao mencionar que as questionará na publicação por serem duas crenças preconceituosas e machistas. Segundo ela, estas religiões atrapalham o funcionamento do Estado, supostamente laico.

A mulher e o ateísmo

Daniela não se manifestou por ter ou não uma crença, mas foi categórica “Eu não preciso de religião para me dizer o que é certo ou errado”. Eu penso como ela, desde que me desprendi de crenças e regras, me sinto mais livre, embora seja uma grande responsabilidade e até uma dificuldade na vida. Não é fácil ser ateu, mas acredito que seja mais fácil para a mulher tornar-se ateísta.

A tarefa de se assumir ateu não é nada fácil, acho que é até tão difícil a ponto de ser comparável com a tarefa de se assumir gay, como Daniela Mercury e Malu Verçosa fizeram. Para mim é um absurdo ver religiosos reclamando por uma suposta falta de espaço que têm na sociedade e tenho vergonha alheia do cara que compartilha coisas da página Orgulho de Ser Hétero. Será mesmo tão difícil ser aceito nessa sociedade patriarcal seguindo todas as regras dela?

Tente assumir que não acredita em Deus e esperar os olhares de reprovação e perguntas como “Mas então, em que você acredita?”. Eu até entendo esta pergunta, afinal, o ser humano precisa de algo para se apoiar. Não é nada fácil ser ateu e não poder se apoiar numa força maior quando a situação está difícil e achar que aquilo vai resolver seus problemas… O que não dá para aceitar é a série de julgamentos das pessoas, as mais radicais acreditam que você “é do” capeta, o algo parecido (porque nem passa pela cabeça delas de que, se você não acredita em Deus, não acredita em nada), outras que você é do mundo e disparam uma série de pré-julgamentos sobre sua moral (ou, supostamente, a falta de) e ainda tem as que acham que você precisa de uma orientação por estar perdida no mundo.  Não é um pouco parecido com a homossexualidade a ser assumida? (Se acharem que estou errada, por favor, me corrijam e argumentem).

Antes de todo o julgamento de terceiros ainda passamos pelo nosso próprio julgamento, principalmente se você foi criado por uma família religiosa (no caso, católica) como eu. O que estou fazendo, pensando, sentindo? Isto não está certo, não foi o que o catequista ensinou. Mas ainda assim, seu pensamento é irreversível.

Posso estar errada e estou preparada para ouvir isso, afinal, não sou nenhuma psicologa, mas desde que me assumi descrente, comecei a notar que a mulher combina mais com o ateísmo (e obviamente com o feminismo, mas isso não vem ao caso) do que com a religião, que a oprime e a submete a regras de conduta que devem ser seguidas para o resto de suas vidas.

Conheço muitas mulheres religiosas que batalham por uma grande posição no mercado de trabalho e um salário digno, como aquelas que não são, mas muitas nem sabem porque precisam tanto de uma luta por espaço ou acham que no fundo deveriam encontrar um príncipe encantado que as sustentem para que possam cumprir suas tarefas de ter filhos como manda Jesus Cristo sem nem ao menos questionarem se querem isso mesmo. O pensamento machista acaba sendo impregnados em seus comportamentos.

Por isso encontrei liberdade na ideologia feminista e no ateísmo. O feminismo me permite fazer minhas escolhas e o ateísmo a não me sentir culpada, a não achar que vou queimar no inferno por sentir vontade de fazer sexo, por exemplo.

A mulher e a religião

“Isso me ofende profundamente como mulher. Sempre me ofendeu e não suporto essa história tanto do catolicismo como dos evangélicos de desvalorizar as mulheres dentro da Bíblia”, disse Daniela em sua coletiva de imprensa. Bom, deixemos a Bíblica se pronunciar por si só e tirarmos a prova de suas palavras:

”Deus disse à mulher: ‘Multiplicarei grandemente os teus sofrimentos e a tua gravidez; darás à luz teus filhos entre dores; contudo, sentir-te-ás atraída para o teu marido, e ele te dominará”. – Gênesis 3:16

”Os maridos devem permitir que as suas mulheres, que são de um sexo mais frágil, possam orar”. – I Pedro 3:7

”Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja”. – I Coríntios 14:33-35

”A mulher aprenda em silêncio com toda a submissão. Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. – I Timóteo 2:11-13

menina-cristaDesculpe, mas mesmo quando acreditava em Deus, eu pensava (e me condenava por pensar): “Porque eu tenho que pagar pela mancada de uma e porque Adão nasceu primeiro, o que eu tenho a ver com isso?”.

A religião mascara o machismo em seus pensamentos com o argumento de que sua ideologia não pode ser questiona por serem leis de Deus, e acaba prejudicando mulheres que a seguem. E elas ainda excluem o feminismo com acusações de violência e de ódio aos homens, quando na verdade é graças a ele que elas podem trabalhar e tem até um pouco mais de espaço na igreja (por menor de ainda seja).

Por isso torna-se tão difícil e responsável ser uma mulher livre das amarras da religião, como eu disse acima. Há todo um julgamento a ser tolerado e uma responsabilidade enorme em fazer e escolher o que bem entende.

Uma dessas responsabilidades por exemplo, é criar um filho. Ainda tenho muita vontade de ter como já mencionei, mas uma das coisas que eu temo. Como criá-lo numa sociedade machista e religiosa? Como explicar minha opinião, quando ele receberá outra na escola, e ainda terá que decidir a sua no futuro (porque darei essa liberdade a ele, claro)?

O que importa é que a tolerância e o respeito devem ser ensinado acima de qualquer coisa, para quem sabe um dia, podermos ter esperanças de não sermos influenciados pela religião, e que ela faça o bem necessário as mulheres, não a submissão. Digo isso, porque, apesar de não ter religião, não condeno a mulher que escolhe ter. Condeno na verdade, as ideologias que a religião impõe a mulher, que acredita e sede sem saber.

Fonte: Terra

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