Crônica: Os rituais da mulher

Ontem fui a um Chá de Cozinha de uma amiga que é muito querida, e que é o oposto de mim, então você já pode me imaginar participando de brincadeirinhas com aquele cunho sexista básico. Não estou criticando as escolhas da minha amiga pelas brincadeiras, mas sim o ritual em si.

Entre as brincadeiras tradicionais, a que mais me assustou foi uma em que ela tinha que descascar uma batata da forma tradicional, com uma faca, e sem arrancar a “carne”, somente a casca. Vamos combinar que este é realmente um desafio, e uma brincadeira que pode ser considerada um ritual de passagem para quem está começando uma nova vida, para quem vai morar sozinha, e ter que cozinhar também. Mas eis que estabeleceram um tempo para ela realizar a tarefa, e ele era determinado de acordo com a fome de seu marido. Diziam: “Anda, seu marido acabou de chegar do trabalho e está morrendo de fome”. Na hora me imaginei no lugar dela respondendo “Ele que cozinhe então!”.

Fiquei imaginando o quão importante era para o homem aprender aquilo tudo também, ali era uma brincadeira claro, mas porque só a mulher tem que passar por esse ritual que simboliza que ela vai cuidar de uma casa?Porque só ela deve cuidar da casa? Aparentemente sim, pois enquanto este é o ritual da mulher, os homens têm a despedida de solteiro, tão tradicionais que nem preciso descrever, né?

Foto: Karoline Gomes
Foto: Karoline Gomes

Falamos tanto sobre escolhas, e sabemos que é claro que a mulher tem a escolha de passar por um ritual como este, não é a toa que hoje existem outras opções como o “chá bar”, uma festa sem brincadeirinhas tradicionais, onde homens e mulheres participam e celebram a união de um casal amigo, ou o “chá de lingerie”, onde novamente só mulheres participam, para celebrar o casamento da amiga, mas ao invés de panelas, ganha-se calcinha, sutiã e outros adereços. Mas a questão da escolha nestes rituais tradicionais vai muito além do quero ou não fazer um chá de cozinha.

Antes mesmo de nascer, estamos em um ritual dentro da barriga, o Chá de Bebê provavelmente muda toda a conotação quando a grávida sabe que é uma menina que está esperando, toda a decoração e as brincadeiras mudam, e claro, os presentinhos rosa chegam.

Depois que nascemos, sentimos uma fisgada que hoje pode não parecer nada, mas com menos de um ano de idade é uma dor absurda e a você chora, grita, esperneia mas sua mãe nem liga, mulher é assim mesmo, sofre pra ficar bonita. E lá está um brinco na sua orelha, sem que você tenha noção do que é aquilo. É para marcar seu rosto, deixar bem claro que você é uma menina, como se todo o laço no pouco cabelo e as roupas cor-de-rosa já não bastassem.

Quando você completa um ano, seu brinco já está cicatrizado, mas é preciso firmar mais ainda que você é menina, uma decoração da Hello Kitty, da Moranguinho ou qualquer outra princesa da Disney que você cresceu assistindo (não por escolha, mas porque você é menina e é a regra) enfeita o salão. Na cesta de brinquedos, bonecas, panelinhas, geladeirinhas, tudo mini, pra você já crescer se apoiando nesses brinquedos para aprender a andar, enquanto o filho da amiga da sua mãe ainda engatinha junto com os carrinhos no chão.

Toda a tradição do primeiro aniversário não é tão ruim quando nos “confortamos” ao saber que os meninos também são submetidos a essas regrinhas chatas bem no começo de suas vidas. Mas aí você deseja ser um menino quando sua mãe liga para todas as mulheres da família alguns anos depois para informar que você menstruou pela primeira vez, e que agora é uma mocinha. Com a família reunida na sala, você ganha uma jóia para simbolizar aquele momento importante, mas ninguém teve coragem de sentar e te contar todos os sentimentos e mudanças que você sentiria a partir dali, isso você pode ler em revistas.

O que vem depois são as obrigações da casa, enquanto aquele mesmo filho da amiga da sua mãe que estava brincando de carrinho na sua festinha de um ano agora corre para ter notas boas e merecer ganhar um carro no aniversário de 18 anos, (e ele vai ganhar mesmo assim, porque né? Ele é homem) você tem que aprender a lavar e passar, cozinhar, arrumar a casa, pintar, bordar ou sei lá o que mais que é nossa obrigação, pois você já é uma mocinha. “Mocinha não joga esses jogos de lutinha no video game, vem descascar as batatas!”. O jeito é fazer e agradecer por não morar no Oriente Médio ou em qualquer outro lugar cuja cultura é mais rigorosa em relação a menstruação.

No aniversário de 15 anos, outra jóia, é disso que as mulheres gostam, né? Se bem que o que você queria mesmo era fazer aquele intercâmbio super interessante ou um computador novo para estudar. Mas tudo bem, todo o dinheiro foi investido na sua festa de debutante, onde você dançou com um príncipe maravilhoso e ganhou um álbum lindo. Alguns momentos não voltam, tem que aproveitar.

O sangue voltou tempos depois quando você perdeu a virgindade, o antes e o depois dessa decisão foi turbulento, pois você dependeu de opiniões de amigas e de sites para fazer sua decisão. Lembra que deveriam ter falado com você quando menstruou? Enquanto o rapaz só passou por algo natural na vida, e está falando sobre isso com o pai, você tem um grande acontecimento se repetindo na sua mente, sem desabafar (o que vão pensar de você?) e nem é nada de mais, se tivessem conversado com você, claro.

Anos depois você conquistou uma independência considerável, já que agora namora e sai quando quiser, mas quando você resolve que vai se casar, o rapaz é obrigado a pedir pros seus pais, pois aparentemente você não conseguiria dizer sim sozinha. Claro que esta é uma notícia a se dar aos pais, mas não seria mais conveniente dizer “Vou casar” ao invés de “Posso me casar?”.

Perto do casamento… Bom, você já sabe, o Chá de Cozinha. Fiquei pensando durante o chá de ontem: “O meu não vai ser assim…”, “Se eu tiver um…”, “Se eu me casar…”, E no fundo estava me sentindo orgulhosa daquele pensamento, ao mesmo tempo que estava feliz por ver minha amiga realizar um de seus maiores sonhos. Mas depois me veio o fato de que eu não estava imune de todos os outros rituais da mulher, que eu ter escolha para um não me ajudava a ter escolha para todos.

Foto: Karoline Gomes
Foto: Karoline Gomes

Minha mãe (sim, ela mesma) furou minhas orelhas dias depois que eu nasci, hoje tenho mais dois furos de cada lado, um piercing e quatro tatuagens, mas a primeira não foi minha escolha. Tive festa de quinze anos, mas foi estilo anos 60, com saias rodadas e ao invés de valsa, dancei rock, mas no fundo aquele era um sonho da minha mãe e eu poderia ter viajado. Não sei cozinhar, lavar, passar ou nada que se aprende depois que “se vira mocinha”, mas sou mulher e ainda não dirijo, ao contrário do meu irmão que ganhou a carteira de habilitação aos 18 anos. Falo tanto sobre reformar meu quarto ou mudar de casa, mas continuo empilhando meus trabalhos no meu quarto de paredes lilás e cortina rosa choque que criei quando tinha 15 anos e que hoje em dia não combina nada comigo.

Minha amiga escolheu um chá de cozinha tradicional, eu não. Mas será que teríamos tantas tradições se fossemos livres para escolher e não fossemos generalizadas desde o começo? Como seria uma vida sem tais tradições?

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