Crônica: Não estamos satisfeitas com as “soluções”

Antes de começar o post já vou avisando: lá vai outro desabafo. Eu sei que ando desabafando demais aqui (e aqui também), mas chegar em casa contendo as lágrimas nos olhos e não saber contar o porque ainda é doloroso. Nós precisamos falar.

Tenho muitas aulas práticas na faculdade o que me beneficia muito, pois quanto mais cedo eu acabo mais cedo posso ir embora, e quanto mais cedo eu saiu, “mais seguro” o caminho de volta para casa, que já é bem perigoso durante o dia, quem dirá durante a noite para essas mulheres ousadas que se atrevem a buscar independência estudando, não é? Pois ontem a aula demorou muito e eu só pensava, “Droga, que hora vou sair daqui?!”. Finalmente desci, em torno das 10 horas, e liguei para uma amiga de infância que estuda na mesma faculdade e mora na mesma cidade que eu e estava em algum ponto do Campus, para irmos embora juntas, temos que nos proteger.

Em menos de cinco minutos que saímos da faculdade e passamos pelo bar na esquina começaram os zumbidos nos nossos ouvidos. Três rapazes não muito mais velhos que nós começaram a gritar coisas como: “Nossa, preciso começar a estudar nessa faculdade, ein?”. Eles estavam descalços, sem mochilas, e bem bêbados, nada que indicava que eram mesmo do nosso Campus, não os identificamos.

Para piorar a situação, eles começaram a seguir a gente. Logo a frente havia um ponto de ônibus com algumas pessoas paradas, e minha amiga sugeriu “Quer parar aqui e fingir que vamos pegar um ônibus?”. Nos trinta segundos antes de passar pelo ponto tive que pensar em estratégias rápidas para despista-los. Se parássemos ali alguém ia nos defender? Não podíamos contar com isso, muita gente acha que aquele tipo de assédio é normal. Poderíamos nos dar ao luxo de pararmos, deixá-los se aproximar e nos defender sozinhas? O que eles fariam com a gente? E se eles não se afastassem? Teríamos que pegar um ônibus na direção contrária de onde vamos só para fugir, sendo que o nosso caminho para casa podia ser feito a pé?

Decidi que não, que continuaríamos naquele passo rápido. Fugindo. Mas eles se aproximaram, e na hora agarrei o braço da minha amiga para atravessarmos a rua, por sorte não vinha nenhum carro ou qualquer outro veículo, pois não sei mesmo dizer se haviam condições de atravessar, se o semáforo estava fechado ou não, apenas queria correr dali.

Atravessamos e eles viraram uma esquina do outro lado da rua assobiando e falando coisas sobre nós e nossos corpos que eu não gostaria de reproduzir. Em menos de cinco minutos, quando fomos avançar outra quadra, um susto. Um homem de moto subiu na calçada para jogar alguma cantada que não ouvimos por causa do barulho do motor da moto, em seguida acelerou olhando pra gente.

Na quadra seguinte, passamos por dois homens, um estava no orelhão ao lado de onde minha amiga ia passar, e outro vindo na nossa direção bem na minha frente. Minha amiga resmungou algo sobre o homem no orelhão, sobre algo que ele disse a ela e sobre o que ela achou que ia acontecer. “Achei que ele ia me agarrar!”, acho que foi o que ela gritou, mas eu não tenho certeza, pois estava muito ocupada nesse momento, tentando despistar o homem que parou na minha frente com um funk pancadão tocando no celular que ele apontava pra minha cara e dizia “Isso aqui é Frejat e Cazuza, puro romance, vem ouvir comigo, gata?”.

O que eu fiz pra merecer aquele bafo de um bêbado desconhecido em cima de mim? Quando nos afastamos do homem minha amiga abriu uma teoria: “Parece que nossos hormônios estão exalando hoje”.

Sobre isso posso dizer uma coisa: Poderíamos estar andando peladas na rua, e isso ainda não os daria o direito de nos invadir, nos apavorar e nos constranger daquele jeito. E o pior de tudo, procurávamos, naturalmente, como que num instinto que foi impregnados em nós, soluções para fugir de tudo aquilo.

Acabo criando uma lista de cautelas para ir a faculdade todos os dias: Se alguém me segue, procuro atravessar a rua e ir para um lugar mais movimentado, por mais estranho que seja, uma vez tive que entrar no banco e ficar por minutos lá até o cara sumir. A cidade que eu moro e a que eu estudo tem Porto que fica bem perto da faculdade, então tem muito caminhão estacionado pelo caminho, e eu nunca passo por trás deles. Quando está chovendo ou o tempo chuvoso, estou sempre com o guarda-chuva na mão, entre outras coisas.

Até tem uma delegacia perto do Campus, e não deixaria de ir lá se algo me acontecesse (pois por enquanto só tenho escapado), mas o que eu ouviria lá? Será que se a polícia fosse eficaz nesses casos seria necessário que eu e tantas mulheres que saem a noite tivéssemos estratégias, supostas “soluções” para fugirmos dos assédios.

Uma lei determina que nas linhas de trem numa cidade longe da onde eu faço faculdade, o Rio de Janeiro, disponibilizem um vagão só para as mulheres, e ainda estampam a cor rosa para diferenciar o sexo frágil. Já que mulher se sente incomodada na hora de sair na rua, que as coloquem num lugar só delas, incomodadas que se mudem.

E lá vão elas para os trens exclusivos. E lá vão os homens atrás. Mais uma vez a desculpa incabível do instinto do homem é ouvida, o respeito jamais cogitado por eles mesmos, quem sente falta, são as incomodadas. Lá dentro do três que era para ser uma solução para elas, as mulheres têm que usar suas próprias soluções para escaparem dos assédios. Usam suas bolsas para as separarem dos homens que as incomodam, colocam a mochila em cima do corpo para escondê-los, como se tivessem culpa de ter que sair de casa e levar o corpo junto.

E o pior, essa ideia de “colocar as mulheres em seu lugar” está pegando, aqui em São Paulo a Câmara Municipal aprovou no na última terça-feira (1° de outubro de 2013), o Projeto de Lei 138/2011 do vereador Alfredinho do PT. A PL institui a obrigatoriedade de metade dos ônibus da cidade de São Paulo, METADE dos ônibus só para as mulheres, para eivtar que sejam assedidas, abusadas e estupradas nesse espaço. A lei nem chegou aos trens e metrôs e já  preocupa. Se você acha que essa lei da 50% de ônibus às mulheres, pense. Na verdade ela tira 50% de ônibus que não podemos usar simplesmente por sermos mulheres, porque os homens não sabem se controlar simplesmente por serem homens, ninguém cogita a falta de educação e respeito da parte deles ou a repressão sofrida por nós. Logo, o espaço público é dos homens por excelência, e se as mulheres quiserem usá-los, não importa sua quantidade e nem que são metade da população, que simplesmente achem seus lugares.

Depois de passar por minutos de pavor até chegar em casa para ver a matéria do Balanço Geral divulgada no site R7, não é comum que eu faça algum tipo de desabafo? Acho que isso é justificável.

Claro que essa história de trem separado não funciona se nunca houve educação e respeito com as mulheres. Não, ainda não conquistamos tudo o que precisamos, e um trem cor de rosa não é uma dessas conquistas desejadas. Por que é tão difícil assimilar a ideia de direitos iguais, a ideia de um mundo onde as mulheres possam frequentar lugares e andar nas ruas pensando em se defender, sendo respeitadas? É visível que a solução correta não é a que o governo do Rio de Janeiro criou ou as que eu uso para me defender diariamente, isso é só uma forma de sobrevivermos, não de viver.

Leia também:

Como podemos combater o estupro e outras violências,

Campanha Chega de Fiu Fiu,

Não existe mulher pra casar, mas homem…

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3 comentários sobre “Crônica: Não estamos satisfeitas com as “soluções”

  1. Karoline, desde o começo dessa história de vagão só para mulheres que eu tenho procurado o que nesse projeto me incomoda. Acabo de descobrir.
    Ele é realmente revoltante! Oras, em vez de cortar o mal pela raiz, em vez de punir os causadores de problema na história (ah não, isso não!) vamos separar as mulheres! Se colocarmos as mulheres num espaço reservado (e calmae, nós somos 55% das usuárias do transporte público e teremos ALGUNS vagões e METADE do ônibus? hue) o problema será resolvido! Sim, nós somos o problema!
    O que tenho a dizer é: Ugh!

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