Porque se preocupar com “50 tons de Cinza”?

Quando foi anunciado que o ator Charlie Hunnam interpretaria Cristian Grey, o homem dos sonhos segundo a autora de 50 Tons de Cinza na adaptação do livro para os cinemas, fãs da trilogia considerada erótica (tive que colocar “considerada” porque eu não considero), se manifestaram a julgar o ator dizendo que ele não era correto para o papel, e não era por causa de sua interpretação ou moral, era porque ele não era “bonito” o suficiente para ser Grey.

Agora, a massa que desaprovava recebe a notícia que mal começou a gravar cenas para o filme, Hunnam desistiu do papel, saindo do elenco. Rezam as más línguas que a decisão foi tomada depois que o ator leu o roteiro, claro que outros boatos surgiram, como a agenda do ator não bater com a rotina de gravações e até que ele teria desistido porque não aprovou o salário que receberia.

Mas o ponto aqui é essa suposta desistência pelo conteúdo no roteiro. Vamos supor que  este foi de fato o motivo que fez o ator afastar sua imagem da produção, o que há na história de 50 tons para ser discutida e questionada? Muita coisa.

Hunnam está atualmente na série da FX "Sons Of Anarchy"
Hunnam está atualmente na série da FX “Sons Of Anarchy”

O romance criado por E.L James surgiu de uma fan fiction que ela começou a escrever sobre a série Crepúsculo, dando aos personagens criados por Stephenie Meyer, uma personalidade mais sensual… e violenta. Segundo uma estudo desenvolvido pelo Departamento de Desenvolvimento Humano e Estudos Familiares na Universidade Estadual de Michigan, a história relata violência e intimidação de um dos parceiros, nesse caso, da mulher, Anastasia Steele.

Segundo a chefe da pesquisa, Amy Bonomi, o livro é uma glamorização da violência contra mulher, uma vez que contado de forma romântica, parecendo que o homem tinha direitos sobre o que fazia. Claro que podemos argumentar que muitas mulheres gostam do sado-masoquismo durante o sexo, tanto quanto homens também podem gostar, mas na história, não foi um encontro de duas pessoas com interesses iguais que aconteceu, sabemos disso.

Grey controla seu “alvo”, Anastasia usando perseguição, intimidação, isolação e humilhação. Não há outra resposta de Steele, além de ter que controlar seu comportamento e adaptá-los as preferências do homem a qual está apaixonada, a fim de manter a ordem em seu relacionamento, características que são notáveis em mulheres que são abusadas sexualmente. Bonomi explica que com o tempo, a personagem perde sua identidade e poder.

Não li o livro, confesso, mas não é por isso que deixei de pesquisar sobre ele e entender porque tamanha fascinação, e a maioria das pessoas (e não foram poucas) que pedi por uma breve sinopse da história dizia. “…E ai, com o tempo, ela começa a ir aceitando as coisas que ele quer, o masoquista que ele é, por amor…”.

A trilogia ficou conhecia pela Anastásia pela detalhada descrição de BDSM (em português podemos traduzir como “Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), um role-playing no sexo que, como eu disse, existe, é normal e tem pessoas que gostam. Mas Segundo a pesquisadora, o BDSM descrito no livro passa longe da ideia verdadeira da prática, uma vez que é preciso que o casal que pretende praticar isso normalmente escolhe para os momentos de intimidade, e há uma negociação que deixa claro que é só ali, no ato sexual. No livro, Grey submete Anastasia a todos os tipos de humilhações e submissões, até mesmo fora da cama, e em sua maioria, sem o conceitimento da mulher, ele simplesmente faz, e ela tem que aceitar.

Não se pode negar que o livro causou o efeito positivo de libertar as mulheres para mais conversas sobre sexo, mostrando a elas que isso não é uma exclusividade masculina e que elas têm o direito de mostrar interesse e falar sobre o assunto. Mas ao mesmo tempo é preocupante que muitas procurem por um modelo de homem baseado no possessivo Cristian Grey, que é muito mais assustador que o de um Príncipe Encantado e comessem a se interessar por BDSM sem mesmo saber que têm opções.

50-tons-de-cinza

O BDSM exige uma conversa sobre limites estabelecidas pelos parceiros, onde são aplicadas regras ao jogos deles na cama. Não duvido que Grey e sua amada tiveram muitas conversas sobre sexo e o que pretendiam fazer, mas duvido que ele tenha dado liberdade para que ela expressasse seus desejos. O livro descreve uma mulher que se satisfaz apenas por ter um homem, não importa se ele supre ou não seus desejos.

Um exemplo de como seria Anastasia se tivesse alguma voz ativa no relacionamento, é o que concluiu o estudo: “Os praticantes de BDSM são menos neuróticos, mais extrovertidos, mais abertos a novas experiências, mais conscientes de seus atos, e ainda assim não concordam com qualquer coisa.

Será que depois de tantas coisas questionáveis em um roteiro ou na história de um livro, não foi isso mesmo que fez o ator desistir de representar Grey no cinema?

Fonte: Health

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