Lulu e o sentimento de vingança

Depois da criação do app Lulu, podemos mudar um pouco o nosso discurso. Não mais seremos as vítimas, que dizem: “Você não sabe como é ser julgada o tempo todo, rotulada. limitada e principalmente objetificada”. Agora uma simples pergunta questiona tudo isso para o lado de onde sempre veio objetificação que recebemos: “Eai, como você se sente agora?”.

Para quem não sabe, o aplicativo Lulu permite que as mulheres classifiquem os homens no seu Facebook com hashtags bem humoradas (ou não) e respondendo perguntas que os classificam (ou não). Eu fui contra a ideia quando ouvi falar e mesmo depois de baixar e experimentar a ferramenta, continuo sendo. É cruel e superficial.

Tão cruel e superficial quanto a forma com que os homens classificam as mulheres baseados num ideal machista que aprendem de berço, e para isso, nem precisam de um aplicativo, não precisam ser anônimos. Na balada, barzinhos, festas, shopping, transporte público, faculdade, escola e até redes sociais, todo lugar é lugar de julgar a mulher.

LuluA superficialidade com que o app expõe as opiniões pré-formadas e preconceituosas sobre homens para você escolher e julgá-los é exatamente igual ao leque de opiniões pré-formadas e preconceituosas que são atribuídas as mulheres nesses lugares já citados. E saber que alguém teve a ideia de juntar tudo isso e montar um questionário não é nada mais que preocupante. Se alguém é capaz de fazer isso, e tornar-se um sucesso, é porque tem alguma coisa errada aí, não?

A partir disso eu poderia dizer que a culpa de estarem sendo julgados hoje é dos próprios homens, que estão colhendo o machismo que plantaram, e é até verdade. Mas prefiro dizer que a culpa é somente do machismo, o primeiro a ensinar a agir assim, julgando as pessoas. E não, não é um ato feminista entrar no aplicativo e se vingar.

Duvido que a criadora do aplicativo nunca tenha sido julgada e influenciada por este machismo e acabou acreditando que julgar e ser julgada é normal, todas as pessoas que fazem isso com ou sem o aplicativo são influenciados também.

Baixei o app, usei, e ainda sou contra porque não é assim que se combate esse hábito machista de classificar mulheres, pagando na mesma moeda. Se combate ensinando que isso não é correto para nenhum dos gêneros, machuca e oprimi. Mas como se ensina?

O que mais me surpreendeu no uso do aplicativo foi que, mesmo contra essa ideia, eu gostei de brincar, sentir aquele sentimento de revanche que tanto critico. Aquele cara que uma vez me julgou por uma pequena atitude que não queria dizer nada daquilo que ele espalhava sobre mim, recebeu o troco em forma de hashtags, para todas as minhas amigas, irmãs, mulheres, poderem ver e julgar junto comigo.

E eles não gostam, já vi muito homem reclamando, e eu me odeio por achar a situação engraçada, por rir em vê-los numa situação de opressão, limitação e mais uma vez (sei que usei muito essa palavra no post) objetificação. Se eu sei tudo o que há de errado em usar o aplicativo não consigo me livrar do sentimento de revanche, imagina outras meninas, aquelas que como a criadora do aplicativo, acham que isso é normal.

Se essa ideia de julgar e oprimir vem do machismo, o Lulu não iguala a mulher aos homens, pois ambos os gêneros já sofrem com o machismo, claro que ambos de um jeito e proporção diferente. Embora eu tenha brincado no aplicativo e gostado, não é assim que eu quero me igualar aos homens. 

Podíamos responder como sempre nos respondem, né? ”Calma meninos, é só uma brincadeirinha!”. Mas nós sabemos que é de muito mal gosto e que não vai trazer nenhuma melhora, nenhuma igualdade, que é o que nós buscamos. Não é assim que eles vão aprender a não julgar para não serem julgados, pois o sentimento de vingança é bom, já provei, e foi dele que surgiu o aplicativo, que ao invés de igualar, só incrementa essa “guerrinha” pelo direito de classificar o próximo.

O que eu realmente posso deixar de recado para os meninos rotulados lá no Lulu é, “Bem feito, mas boa sorte”.

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6 comentários sobre “Lulu e o sentimento de vingança

  1. hahahaha… tapa trocado não dói, vcs deram o primeiro tapa e o nosso tapa vai ser muito mais forte..kkk tubby vem ai.. #engoletudo #adoratapas hahahahaha

  2. Nós demos o primeiro tapa? Não sabia que os homens agora eram os maiores reprimidos pela sociedade patriarcal e julgados por tudo que fazem desde quando nascem.
    Se ser julgado e avaliado em um app incomoda imagina passar por isso todos os minutos da sua vida só por você ser mulher.

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