“Não seja um babaca”: A participação do homem no feminismo

Uma discussão que não deveria ser necessária sempre torna a ser tópico polêmico em coletivos e grupos feministas: a necessidade ou simplesmente a participação do homem no feminismo. Este ano o assunto voltou a ser tomado, por conta da relevação de que o Femen sempre foi comandado por um homem, ou quando o deputado Romário (sim, o ex-jogador de futebol), apresentou a lei contra pornografia de revanche, tornando-se voz, pelo menos na reportagem da Marie Claire, dessa luta feminina.

971193_383418875106938_1607974682_nSão dois exemplos muito diferente os que eu citei. De um lado, o Femen, que já não era muito do gosto das feministas e criava uma imagem absurda da mulher protestante e do outro um homem realmente fazendo algo para mudar uma situação crítica. Ou seja, de um lado, um homem que não entende nada de mulher e de feminismo achando (ou fingindo?) que sabe e tentando se manter na posição que a sociedade sempre lhe proporcionou, a de líder, e do outro um homem aproveitando uma posição na política para tentar realmente fazer algo útil, provavelmente por compreender a situação feminina sobre aquele assunto específico.

É difícil mesmo pensar no homem (o que é realmente privilegiado pelo patriarcado, o branco, heterossexual e de classe média) entendendo as aflições da mulher e porque o feminismo ainda é necessário. Por isso este vídeo – que prova que é possível – me chamou atenção esta semana.

O problema com relação ao vídeo é que não deveria chamar atenção, ou não deveria ser necessário ao menos. Mas a mensagem dada pelo feminista no vídeo, não só é válida, como… sincera.

É a mesma resposta que me deu o escritor – e feminista – Alex Castro em entrevista para o Hoje Acordei Amélia:

“Os homens são metade da humanidade e não dá pra resolver esses problemas sem eles. Os homens precisam se educar, ter consciência, parar de estuprar, essas coisas. Mas, dentro do feminismo, os homens precisam tomar muito cuidado para não assumir a postura paternalista de querer dizer às mulheres o que fazer. Isso não cabe aos homens. Temos que ser parceiros no feminismo, nunca protagonistas”. 

Além de produzir textos sobre feminismo para o Papo de Homem, (destaque para: “Feminismo para homens: Um curso rápido”) Castro lançou este ano o livro “Mulher de um homem só“, romance que reflete sobre os desafios da mulher moderna, com a narrativa da… mulher! Afinal, quem melhor para falar sobre seus próprios problemas?

Alex Castro | Foto por: Cláudia Regina
Alex Castro | Foto por: Cláudia Regina

O papel do homem no feminismo é simples, e o que faz todo este questionamento vir a tona é a insistência de homens do tipo do líder do Femén, que acham que podem comandar a causa. (A tal falsa ideia de igualdade a qual já debatemos aquiNão existe espaço para liderança do homem no feminismo, mas sim de participação. Além do dever de “não ser um babaca”, o que deveria ser obrigação de todos, dentro ou fora do feminismo.

Esclarecendo (porque não basta explicar apenas uma vez, claro). Não existir espaço para a liderança do homem no feminismo, não significa que o feminismo quer desbancar os homens da vida no geral e tirar suas posições de liderança, mas sim igualar a capacidade da mulher de liderar tanto quanto o homem em qualquer aspecto da vida – exemplos: contas da casa ou chefia no trabalho – , como explicou Alex na entrevista:

“Acredito que existe gente de tudo quanto é tipo nesse mundo. Mas se existem pessoas que querem ‘diminuir o homem e não igualizar os sexos’ essas pessoas, por definição, não são feministas. O feminismo é a busca por direitos iguais para as mulheres (enquanto o machismo é a dominação do homem sobre a mulher). Então, é preciso tomar cuidado para tratar esses termos como análogos. Uma ‘feminista’ que queira diminuir os homens é como um ‘comunista’ que acredita em livre-mercado: não faz sentido.”

“Mas se a mulher que se igualar ao homem nas lideranças e todas as atividades ‘da vida’ porque o homem não pode ser igual a mulher no feminismo e liderar?” É simples. O feminismo não é uma atividade “da vida”, é uma luta necessária para melhorar a vida. É uma luta das mulheres (e dos homens que queiram particpar) pelas mulheres, então cabe a elas liderarem e saberem quais são as necessidades.

“Mas o homem também sofre com o machismo”. Pois é, eu concordo, e até direcionei esta pergunta a Castro, que respondeu:

“Acho que é uma comparação até perigosa de se fazer. Embora os homens sofram com o machismo sim, ao serem limitados em papéis muito restritos e etc, as mulheres são mortas pelo machismo em altos números. Falar no pouco que sofrem os homens – ó coitadinhos duzôme – , é quase como jogar essas mulheres mortas pra debaixo do tapete de novo e de novo”.

Exato, o homem sofre com o machismo pois não há uma limitação sobre o que é ser “macho” segundo o patriarcado, se essa limitação não for exercidas, lá vem os esteriótipos e preconceito. Mas não há repressão, diminuição e mortes, como há para as mulheres. (Há no caso dos homens homossexuais, que não se encaixa na categoria de homem privilegiado que expliquei acima).

Mesmo o homem, até aquele favorecido, que entende as causas da luta da mulher por seus direitos, não as sentiu, por isso não pode liderá-las. Mas isso não significa que não ele não possa apoiá-las. Mesmo aquele que mudou de opinião, que era machista (difícil não nascer machista nessa sociedade) e descobre que não é assim que o mundo deve ser.

Em um coletivo que participo – e que aceita a participação dos homens – surgiu o tópico sobre este homem que “se converte” ao feminismo. Ele não era aceito pela maioria, por tudo o que já havia dito e feito.  Mas, como já falei aqui antes, se o feminismo quer mudanças na sociedade patriarcal, porque não mudarmos a todos? O homem pode não ser necessário ao feminismo, mas nunca será dispensável.

Então, ao homem que quer entender e apoiar o feminismo, seja bem-vindo a participar das lutas. Ao que teme se intitular feminista, que lide com o patriarcado da forma que ele o prejudica. Mas procure, no mínimo, não ser um babaca. Isso já é uma ajuda a causa.

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3 comentários sobre ““Não seja um babaca”: A participação do homem no feminismo

  1. Olha, eu concordo com seu post em tanta profundidade que até emociona. Não se faz sociedade feminista sem homens feministas, ou melhor, não se faz sociedade feminista com homens machistas. O feminismo é uma ideologia de poucas premissas, bem básicas, mas, infelizmente, algumas pessoas acham que devem escrever a bíblia do feminismo. São perspectivas distintas, vivências diferentes e então há vários feminismos. Fico muito incomodada quando querem silenciar ou perseguir feministas inclusivas, como eu, que defendem o homem como capaz de ser feminista. Eu ataco a cultura, não pessoas ou cromossomos. Deixarei uma crítica, no entanto, a parte. Obrigada por ser uma voz me representando.

  2. “É difícil mesmo pensar no homem (o que é realmente privilegiado pelo patriarcado, o branco, heterossexual e de classe média) entendendo as aflições da mulher e porque o feminismo ainda é necessário. ”

    Olha, não foi o homem branco que inventou o patriarcado não. Todas as civilizações e até outras espécies humanas eram machistas. O Homem de Neanderthal era patriarcal. Não responsabilizar os homens de outras etnias achei ingênuo. Machismo é a primeira das xenofobias.

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