Pare de culpar as mulheres!

Sim, eu sei que eu deveria começar este post explicando porque dessa ausência enorme de posts no blog e porque este layout confuso que nunca sai de construção, mas eu preferi voltar a escrever aqui tratando de um assunto muito mais sério e urgente, a forte culpalização da mulher.

Recentemente uma pesquisa realizada pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) constatou, entre outros absurdos, que 65% dos brasileiros acreditam que  “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Sinceramente, a informação não me surpreendeu inicialmente. Quem participa de grupos de discussão e militância feminista sabe que a realidade é essa mesmo sem pesquisa.

Mas a pesquisa impactou muitas pessoas, muitas que talvez nunca tinham pensado no assunto e outras que eu já vi (pelo menos no meu convívio) julgando mulheres pela forma com que elas se vestem. Pensei como era interessante toda aquela manifestação e que seria incrível se esse choque de realidade fizesse as pessoas refletirem e concluírem que o culpado pelo estupro não é ninguém mais que o estuprador.

Em consequência a esta revolta, logo surgiram incríveis campanhas, como a que é vinculada nas redes sociais com a hashtag #NãoMereçoSerEstuprada ou a #SouMinha, que ganhou até tumblr. E que muitas pessoas que não movem um dedo em prol de nada, acham desnecessário por causa da exibição do corpo (porque faz todo o sentido protestar sobre a falta de liberdade de se vestir como quiser sem mostrar o corpo).

A primeira reclamação é a relação da mulher na pesquisa. Muitas pessoas “argumentam” que boa parte das pessoas que fazem parte da resposta que rendeu 65% dos votos, são mulheres, e quando eu ouço esta afirmação, eu só me pergunto: e dai?! Esta constatação muda de alguma forma os resultados da pesquisa? Não é mais preocupante ainda que as próprias mulheres pensem isso? Se elas pensam assim, já parou para pensar quantas delas já deixaram de frequentar lugares ou vestir determinadas roupas por causa deste pensamento? (Espera, a Campanha Chega de Fiu-Fiu já constatou esse número).

É claro que em uma sociedade regada pelo machismo, as mulheres vão acreditar na afirmação de resposta pela pesquisa, pois ela cresceu ouvindo como se portar e como se vestir para não ser atacada tanto quanto o homem cresceu aprendendo como ser o predador que agarra todas para manter sua “masculinidade”.  Por isso, nunca culpo a mulher pelo seu próprio machismo, ela só reproduz os discursos que escuta desde criança e não se beneficia em nada com isso.

E ainda é difícil demais pensar que os honrosos 35% dos entrevistados que não concordaram com a afirmação também tem mulheres no meio?

Quando eu torno a me perguntar “e daí?” eu só consigo constatar uma coisa: como é fácil culpar a mulher. A cabeça da sociedade já está inclinada para isso.

“A pesquisa que constata a culpa da mulher por sofrer violência sexual é também culpa da mulher”, fácil e não fere o orgulho de ninguém que possui esse pensamento machista e não tem a menor coragem de mudá-lo. É muito mais fácil resolver o problema varrendo para debaixo do tapete argumentando que as mulheres também pensam assim e ponto final, do que refletir um pouco e conversar com seus filhos e ensinar a não violentar, a não estuprar.

O outro brilhante argumento é que “a pesquisa foi muito tendenciosa”, mesmo que a pergunta tenha sido direcionada e tendenciosa, não vamos esquecer que ela dá a pessoa a opção de responder “sim” ou “não”.

Além disso, o que há a se argumentar? A pesquisa é sobre a falta de liberdade da mulher com o próprio corpo que é visto como objeto e abusado diariamente, já está constado o que as pessoas pensam disso, agora deve-se pensar em como combater isso (mesmo que hajam pessoas que acham que o comportamento dos estupradores é “justificável”).

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Como eu disse anteriormente, as campanhas e a educação são os melhores caminhos, e se você acha que #NãoMereceLerEstuprada, me desculpe, mas isso não é simplesmente algo que pode ser ignorado por causa de um capricho de uns e outros, a violência acontece e é comprovada, talvez se não existisse, não estaria incomodando. Na verdade #MerecerNãoSerEngada pelo IPEA é fingir que a violência não existe, e isso não vai mudar com, ou sem pesquisa. 

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