O marido da Gisele

Gisele Bundchen é a modelo mais bem paga do mundo. Ela trabalha desde os 14 anos de idade e superou a famosa “crise dos vinte anos de carreira” que toda modelo tenta lutar contra para continuar trabalhando. Depois de diversas campanhas de grandes marcas, filmes e projetos sociais, ela driblou o mundo exigente da moda, continuou na ativa, e hoje aos 34, ela tem o seu próprio império. Ainda faz campanhas, é empresária, e conseguiu manter sua personalidade acima de sua imagem. As marcas se adaptam a Gisele, e não Gisele as marcas. Além de tudo isso, ela é uma boa mãe. Ah… E ela tem uma marido troféu.

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Tom Brady, o marido da Gisele, é um jogador de futebol americano que (segundo o wikipédia) atua como quarterback pelo New England Patriots na National Football League. Ele ajudou o time a alcançar muitas conquistas, a mais recente no Super Bowl 2015 que aconteceu no último fim de semana. O rapaz é praticamente aquele biotipo que os filmes americanos nos mostraram a vida toda: o cara inteligente, atleta, bonito e popular do ensino médio, que todas as garotas – supostamente – queriam ter. Quase o Troy Bolton da vida real.

Gisele tem Brady e também uma família com ele – um menino e uma menina, e um menino do outro casamento dele – há seis anos. Formando assim a família-de-comercial-de-Coca-Cola (já que estamos falando de uma versão americanizada da coisa).

Comparando a carreira dos dois, com todo respeito ao atleta e seus méritos, Brady é o troféu de Gisele no quesito vida pessoal, mais uma de tantas conquistas dela. E é assim que a mídia daqui o vê, o marido de uma mulher poderosa.

Apesar de todas as conquistas de Brady, e do interesse dos brasileiros pelo esporte, sabemos que o futebol americano ainda não é tão popular ao redor do mundo, e tá longe de ser tão famoso quanto a própria esposa do cara. Gisele é quase tão (ou mais famosa que) o nosso popular futebol.

Por isso durante os jogos, as câmeras sempre se desviam, nem que seja por segundos, para a arquibancada, em busca da família de Brady entre os torcedores. Para dar conteúdo para o que toda mídia, fora a parte segmentada de esporte, quer saber. Como estão os filhos de Gisele? Que roupa ela estava usando na torcida? Ou até mesmo o que ela achou da performance do marido em campo?

Agora a mídia brasileira finalmente tem motivos para destacar o Super Bowl em manchetes. Assim como eu fiz há cinco parágrafos atrás: destacou que o marido de Gisele ganhou o Super Bowl. E é aí que começam as male tears.

Aparentemente alguns homens acharam um absurdo reduzir o tão poderoso Tom Brady a marido de “uma modelo”. Provavelmente não é justo com ele – mesmo que o nome de sua esposa atraia muito mais atenção em uma manchete por méritos dela.

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O endeusamento dos homens no esporte:

Não pude deixar de notar que rola uma espécie de “endeusamento” na fala desses homens que defendem a “injustiça” sofrida por Brady. Os homens estão acostumados a endeusar uns aos outros no esporte.

Claro que esse tipo de endeusamento é sustentado pela mídia especializada, que não para de produzir matérias e propagandas evidenciando a imagem do homem alpha-atleta. Mas esse comportamento transborda para a sociedade num modo geral, e todos, até quem nem gosta tanto de esporte, acaba vendo tais homens como super heróis.

Isso acontece com Neymar e, principalmente durante a Copa do Mundo, quando ele se machucou. Foi uma coisa chata, injusta, poderia ter sido mais grave… Mas parecia que ele tinha morrido. Ó grande ídolo.

No fim do ano, surge o nome do surf, um homem é claro. Idolatrado, é claro. Só se falou de Gabriel Medina por quase um mês inteiro depois que ele ganhou o mundial. Meses antes disso, a corajosa surfista de ondas gigantes Maya Gabeira quase morreu surfando uma onde imensa em Portugal, mas nada tão importante quanto o título de Medina ou a coluna de Neymar, certo?

Para coroar a maratona de endeusamentos, Anderson Silva volta para o UFC depois daquela fratura na perna, com uma vitória duvidosa, mas ainda endeusado.

É tão natural idolatrar um homem no esporte que a mera menção do nome de uma mulher em comparação ao destaque que ele deveria ter por sua vitória torna-se uma afronta.

Vitória no esporte mesmo é ser mulher nessa mundo ainda tão sexista, e conquistar muitos prêmios, troféus, medalhas, e principalmente conseguir viver disso, passando por cima de tanta opressão.

Agora vamos combinar que no Brasil, nem com a terceira maior torcida de futebol americano do mundo, a mídia especializada não dá evidência ao esporte. Não estaria a mídia popular – e a Gisele – fazendo um favor para quem quer que o assunto ganhe maiores proporções e se popularize de vez por aqui?

Objetificação?

E é mesmo uma injustiça reduzir uma pessoa – qualquer pessoa – a objeto de seu cônjuge, principalmente ao falar de uma conquista recém feita por qualquer um deles. Mas eu devo pontuar: isso SEMPRE acontece com as mulheres.

“Veja como trabalha a mulher que conquistou George Clooney”, “Conheça o estilo da namorada de Chay Suede”, “Novo trabalho da namorada de Neymar” e daí pra pior, minha gente. Mesmo que Amal Alamuddin vença mais um caso polêmico e difícil em sua carreira de advogada, ela ainda será classificada como a esposa de George Clooney, como se o maior mérito da vida dela, tenha sido se casar com ele.

E ai, isso acontece só uma vez com um jogador pouco idolatrado (ainda!) no Brasil, por causa de sua esposa mundialmente famosa, e então começa a choradeira: Se começa a falar de “objetificação”, quando o caso contrário teria sido muito pior. Só se fala o quão é feio fazer isso (ou qualquer outra diminuição e opressão) com ambos os sexos, quando o homem é o “atingido”.

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No momento, eu só posso aproveitar a oportunidade para somente uma vez, nesse pequeno caso (que todo mundo vai esquecer daqui a alguns meses), para dizer:  parabéns Brady, por ter conseguido conquistar Gisele.

Depois disso, tudo volta ao “normal”. O homem volta a ser deus no que faz, principalmente se ele for atleta. E a mulher volta a ser “mulher de alguém” – e ai dela se não for, pois vão perguntar o porquê.

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