O marido da Gisele

Gisele Bundchen é a modelo mais bem paga do mundo. Ela trabalha desde os 14 anos de idade e superou a famosa “crise dos vinte anos de carreira” que toda modelo tenta lutar contra para continuar trabalhando. Depois de diversas campanhas de grandes marcas, filmes e projetos sociais, ela driblou o mundo exigente da moda, continuou na ativa, e hoje aos 34, ela tem o seu próprio império. Ainda faz campanhas, é empresária, e conseguiu manter sua personalidade acima de sua imagem. As marcas se adaptam a Gisele, e não Gisele as marcas. Além de tudo isso, ela é uma boa mãe. Ah… E ela tem uma marido troféu.

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Tom Brady, o marido da Gisele, é um jogador de futebol americano que (segundo o wikipédia) atua como quarterback pelo New England Patriots na National Football League. Ele ajudou o time a alcançar muitas conquistas, a mais recente no Super Bowl 2015 que aconteceu no último fim de semana. O rapaz é praticamente aquele biotipo que os filmes americanos nos mostraram a vida toda: o cara inteligente, atleta, bonito e popular do ensino médio, que todas as garotas – supostamente – queriam ter. Quase o Troy Bolton da vida real.

Gisele tem Brady e também uma família com ele – um menino e uma menina, e um menino do outro casamento dele – há seis anos. Formando assim a família-de-comercial-de-Coca-Cola (já que estamos falando de uma versão americanizada da coisa).

Comparando a carreira dos dois, com todo respeito ao atleta e seus méritos, Brady é o troféu de Gisele no quesito vida pessoal, mais uma de tantas conquistas dela. E é assim que a mídia daqui o vê, o marido de uma mulher poderosa.

Apesar de todas as conquistas de Brady, e do interesse dos brasileiros pelo esporte, sabemos que o futebol americano ainda não é tão popular ao redor do mundo, e tá longe de ser tão famoso quanto a própria esposa do cara. Gisele é quase tão (ou mais famosa que) o nosso popular futebol.

Por isso durante os jogos, as câmeras sempre se desviam, nem que seja por segundos, para a arquibancada, em busca da família de Brady entre os torcedores. Para dar conteúdo para o que toda mídia, fora a parte segmentada de esporte, quer saber. Como estão os filhos de Gisele? Que roupa ela estava usando na torcida? Ou até mesmo o que ela achou da performance do marido em campo?

Agora a mídia brasileira finalmente tem motivos para destacar o Super Bowl em manchetes. Assim como eu fiz há cinco parágrafos atrás: destacou que o marido de Gisele ganhou o Super Bowl. E é aí que começam as male tears.

Aparentemente alguns homens acharam um absurdo reduzir o tão poderoso Tom Brady a marido de “uma modelo”. Provavelmente não é justo com ele – mesmo que o nome de sua esposa atraia muito mais atenção em uma manchete por méritos dela.

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O endeusamento dos homens no esporte:

Não pude deixar de notar que rola uma espécie de “endeusamento” na fala desses homens que defendem a “injustiça” sofrida por Brady. Os homens estão acostumados a endeusar uns aos outros no esporte.

Claro que esse tipo de endeusamento é sustentado pela mídia especializada, que não para de produzir matérias e propagandas evidenciando a imagem do homem alpha-atleta. Mas esse comportamento transborda para a sociedade num modo geral, e todos, até quem nem gosta tanto de esporte, acaba vendo tais homens como super heróis.

Isso acontece com Neymar e, principalmente durante a Copa do Mundo, quando ele se machucou. Foi uma coisa chata, injusta, poderia ter sido mais grave… Mas parecia que ele tinha morrido. Ó grande ídolo.

No fim do ano, surge o nome do surf, um homem é claro. Idolatrado, é claro. Só se falou de Gabriel Medina por quase um mês inteiro depois que ele ganhou o mundial. Meses antes disso, a corajosa surfista de ondas gigantes Maya Gabeira quase morreu surfando uma onde imensa em Portugal, mas nada tão importante quanto o título de Medina ou a coluna de Neymar, certo?

Para coroar a maratona de endeusamentos, Anderson Silva volta para o UFC depois daquela fratura na perna, com uma vitória duvidosa, mas ainda endeusado.

É tão natural idolatrar um homem no esporte que a mera menção do nome de uma mulher em comparação ao destaque que ele deveria ter por sua vitória torna-se uma afronta.

Vitória no esporte mesmo é ser mulher nessa mundo ainda tão sexista, e conquistar muitos prêmios, troféus, medalhas, e principalmente conseguir viver disso, passando por cima de tanta opressão.

Agora vamos combinar que no Brasil, nem com a terceira maior torcida de futebol americano do mundo, a mídia especializada não dá evidência ao esporte. Não estaria a mídia popular – e a Gisele – fazendo um favor para quem quer que o assunto ganhe maiores proporções e se popularize de vez por aqui?

Objetificação?

E é mesmo uma injustiça reduzir uma pessoa – qualquer pessoa – a objeto de seu cônjuge, principalmente ao falar de uma conquista recém feita por qualquer um deles. Mas eu devo pontuar: isso SEMPRE acontece com as mulheres.

“Veja como trabalha a mulher que conquistou George Clooney”, “Conheça o estilo da namorada de Chay Suede”, “Novo trabalho da namorada de Neymar” e daí pra pior, minha gente. Mesmo que Amal Alamuddin vença mais um caso polêmico e difícil em sua carreira de advogada, ela ainda será classificada como a esposa de George Clooney, como se o maior mérito da vida dela, tenha sido se casar com ele.

E ai, isso acontece só uma vez com um jogador pouco idolatrado (ainda!) no Brasil, por causa de sua esposa mundialmente famosa, e então começa a choradeira: Se começa a falar de “objetificação”, quando o caso contrário teria sido muito pior. Só se fala o quão é feio fazer isso (ou qualquer outra diminuição e opressão) com ambos os sexos, quando o homem é o “atingido”.

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No momento, eu só posso aproveitar a oportunidade para somente uma vez, nesse pequeno caso (que todo mundo vai esquecer daqui a alguns meses), para dizer:  parabéns Brady, por ter conseguido conquistar Gisele.

Depois disso, tudo volta ao “normal”. O homem volta a ser deus no que faz, principalmente se ele for atleta. E a mulher volta a ser “mulher de alguém” – e ai dela se não for, pois vão perguntar o porquê.

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A patrulha da gordurinha

Essa semana a internet se revoltou por conta de (mais) uma patrulha do portal R7 sobre os corpos das mulheres. Segundo a publicação, ao tirar a roupa na praia foi constatado que a jornalista Fernanda Gentil não atende as expectativas criadas – obviamente não por ela – pelos espectadores que a conheceram na TV durante a cobertura da Copa do Mundo (que ela fez perfeitamente, diga-se de passagem), por ter “muitas curvas, algumas gordurinhas e até celulites”.

Ninguém gostou da publicação de mal gosto, e nem precisa repetir exatamente o que continha nela. Depois das críticas e de descobrir que a apresentadora está grávida de dois meses, o site deletou o chorume.

Como se só a gravidez fosse uma justificativa para deletar aquilo. Como se qualquer coisa justificasse a encheção de saco sobre o corpo feminino. Sabemos que não, mas o R7 não sabe. A internet não sabe.

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A publicação sobre o corpo de Fernanda é um tipo de patrulha que acontece todos os dias. Todos os dias vemos postagens com análises sobre o corpo feminino com base em como ele deveria parecer para uma sociedade exigente e completamente adepta dos padrões de beleza. Por conta disso, as pessoas correm atrás de uma possível criminosa, a tal “gordurinha”.

Alguém um dia determinou que ter gorduras no corpo feminino não é bonito, e desde então começou a cassação a esta (supostamente) terrível vilã.

Ela pode vir em diferentes disfarces: Tem a gordurinha localizada, a gordurinha da idade, a gordurinha pós fim de semana. Tem também a gordurinha o gerúndio, quando uma mulher está “queimando” enquanto pratica alguma atividade física. E a representação mais conhecida é a tal “gordurinha indesejada”.

As pessoas já estão acostumadas a procurar a tal gordurinha proibida. Quando batem os olhos no corpo de uma mulher, principalmente na praia, nesse verão, ninguém está isenta da inspeção. Então, você que (assim como eu) adora a Fernanda Gentil e a defendeu da injustiça, provavelmente condena muitas outras avaliadas nesses portais que acabam alimentando um hobbie diário do brasileiro: a fiscalização da gordura alheia.

O que ninguém pergunta é como aquela mulher lida com a tal gordurinha. Ela provavelmente não deve gostar, a final, todo mundo diz pra ela que não é legal. Mas já pararam pra pensar que a tal gordurinha indesejada pode ser, na verdade, desejada? E se a mulher gosta do corpo dela daquele jeitinho?

E se ela for só um gordurinha, dessas que existem no corpo de uma mulher comum como no de muitas outras? Que não prejudica a saúde dela e menos ainda a vida de ninguém?

Eu sei que é difícil aceitar, tendo anos de fiscalização nesse possível mal que assombra as mulheres. Mas pode relaxar e deixar que da sua gordurinha cada uma pode cuidar disso particularmente, até nomear como ela preferir, queimar se achar que precisa ou simplesmente fingir que ela nem existe e conviver com ela.

Claro que quanto menos “notícias” do tipo nos supostos “portais”, melhor. Mas falta o boicote na audiência desse tipo de conteúdo, certo?

Anitta, Pitty e todas nós

Se tem uma coisa que a mídia gosta de abusar, é da rivalidade feminina. Mais ainda quando se trata do mundo da música.

Já reparou que toda cantora tem que ter sua rival ou ser comparada (ou dita como imitadora) de outra? Se (eu disse ‘se’) essa rivalidade é de fato abraçada e levada a sério por estas artistas, ou qualquer outra mulher, como culpa-las quando estão inseridas numa sociedade em que a rivalidade feminina é tão comum e somos criadas para ficarmos de olho na “concorrência”?

A mídia constrói esse conceito, que é aceito pela sociedade, e finalmente chega a afetar você e aquela sua coleguinha de trabalho, sua vizinha e outras mulheres a sua volta. E isso é um dos fatores que nos enfraquece diante dessa sociedade opressora, e dificulta o combate ao machismo.

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Sim, essa visão de rivalidade feminina é bem machista. E é tão implantada culturalmente que, nessa semana, uma nova dupla de rivais surgiu.

Notícias em portais sobre famosos apontavam que, durante a gravação do programa Altar Horas, o “clima de rivalidade teria esquentado” entre as cantoras Anitta e Pitty (que já defendeu a primeira numa outra ocasião), que debateram sobre feminilidade e liberdade sexual da mulher.

Até as fotos das duas moças escolhidas para ilustrar a matéria foram bem selecionadas para formar o tal “clima” que a mídia acredita que existiu, pelas caras e posturas de cada uma delas.

Está longe da minha forma de pensar concordar com o que a Anitta disse, e pelo jeito para a Pitty também, mas isso acontece. O que acontece também, é a troca de informação e pontos de vistas entre pessoas, como aparentemente aconteceu na gravação do programa.

Em grupos feministas, falamos sobre a necessidade de inserir mais a Anitta (que se considera feminista) nos debates e discussões para que ela possa entender as pautas do movimento o qual apóia – tudo isso com respeito e solidariedade. Pitty convidou Anitta também e esse foi o tapa na cara que a mídia precisava:

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As mulheres podem e devem disputar entre si. Mas porque não por uma vaga na faculdade, por uma posição legal no emprego ou mesmo pelo título de quem rebola mais no baile funk? Mas porque não uma disputa saudável e sem julgamentos?

Ou achamos que a rivalidade é a mesma quando disputamos contra os homens? Além desse exemplo tratar-se de uma disputa desigual na maioria das vezes, muitas mulheres só começam a brigar e disputar simplesmente por serem mulheres, por acreditarem que é isso que fazemos entre si.

No primeiro tweet da Pitty sobre assunto, fica claro como é natural que a mídia e as pessoas acreditem que haja rivalidade, como se espera que isso aconteça.

Nesse caso se deve pontuar: querida mídia do Brasil. Mulheres discutem. Nós debatemos, conversamos, discordamos. Assim como os homens fazem. Assim como pessoas civilizadas deveriam fazer. O que aconteceu entre Pitty e Anitta não passa de um episódio de discordância que (LIDEM COM ISSO!) acabou unindo ainda mais as duas. No feminismo chamamos isso de sororidade.

Você consegue imaginar o Teste de Bechdel ao contrário?

Sem antes ler ao menos uma crítica, nem mesmo uma sinopse, somente com a curiosidade de ouvir as pessoas falando por alto, no fim de semana, no auge da minha procrastinação, eu apertei o play no título Orphan Black no Netflix. Resultado, eu viciei nas personagens incríveis vividas pela igualmente incrível Tatiana Maslany, e terminei a primeira temporada em dois dias.

O roteiro é sobre a descoberta de Sarah Manning de que é resultado (ou vítima) de experiências científicas ilegais, que geraram diversas outras como ela – clones – enquanto ela tenta reconstruir sua vida e recuperar sua filha Kira.

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Como sempre acontece quando fico obcecada por uma história, fui procurar sobre ela. Roteiristas, criadores, atores ou mesmo pontos de vistas diferentes, para pensar sobre algo que eu não notei assistindo sozinha. E foi aí que esbarrei nesse texto que me abriu os olhos para um detalhe:

Como eu tinha notado, Orphan Black se trata de uma ficção científica feminista, que passa no Teste de Bechdel, e ainda, com um leve toque de misandria, reprovaria se existisse a versão inversa dele.

Aprovação no teste:

O Teste de Bechdel foi criado pela (recém premiada) cartunista Alison Bechdel, para medir a participação da mulher nas produções da cultura pop. Inicialmente usado em quadrinhos, logo descobriu-se que era fácil adaptar as perguntas também para livros, filmes e séries. As questões são:

  • Há mais de duas mulheres na trama, COM NOME?
  • Elas conversam uma com a outra?
  • Elas tratam de qualquer assunto menos um homem?

Parece simples, mas ao aplicar o teste em diversas séries é difícil encontrar uma que atenda a todas as respostas. A mais recente referência de aprovação no Teste (a qual também sou fã) é Orange is The New Black. Respondendo a estas perguntas segundo a série Orphan Black, se consegue respostas positivas ao extremo.

Não só há mais de duas mulheres na trama e com nome, como todas são personagens muito bem desenvolvidas com perfis, histórias e conflitos diferentes que guiam toda a trama de forma individual, mesmo que a personagem central seja Sarah. E não são só as Clones que dominam as tramas. Os personagens masculinos são de fato, poucos.

Elas não só conversam entre si, como quase nunca o assunto é um homem, na maioria dos diálogos, o assunto é uma mulher. O conflito de personalidade entre elas, apesar de toda a questão científica e genética, desenvolve relações interessantes.

É incrível ver o apoio que as Clones têm uma a outra, sempre se ajudando, seja por questões de sobrevivência pessoal ou da parceira.

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Tatiana não somente se veste como Sarah, Beth, Helena, Rachel, Cosima, Alison, Katja e muitas outras que creio que vão aparecer ao longo da trama, ela incorpora diferentes personalidades, comportamentos, sotaques, reações e expressões tão bem, que mesmo sem a caracterização de cada uma, somente com sua atuação, é possível distinguir qual clone ela está performando. Muitas vezes eu até esqueço de que é a mesma atriz que faz todas essas personagens.

Sarah é um punk crimonosa buscando pela confiança da filha e se estabelecer na vida, Beth é uma policial responsável e atleta, Helena uma fanática religiosa criada na igreja, Cosima uma universitária que estuda para ser cientista, Alison uma mãe de família com todos os conflitos e cobranças pessoais que elas podem ter e uma bela atiradora… Fora outras personalidades. A série tem todo o tipo de representatividade feminina, (apesar de que eu senti falta de atrizes negras), passando longe de se limitar a somente um tipo estereotipado de mulher.

Teste ao contrário:

Se houvesse um Teste de Bechdel ao contrário (sabemos que não há menor necessidade disso, mas só imagina) Orphan Black, com uma pitada genial de misandria, reprovaria o teste.

Acredito que os personagens masculinos que foram melhor desenvolvidos são Felix Dawkins, irmão adotivo, sarcástico de Sarah, e Paul Dierden, monitor de Beth Childs e posteriormente amante e cúmplice de Sarah. Ambos tem uma história mais ou menos contada e maior participação na trama.

Os outros homens em Orphan Black são normalmente vilões ou bem secundários. E é um desafio encontrar uma conversa entre eles cujo assunto não seja uma mulher.

Resumindo em uma frase: Orphan Black é a série feminista que você precisa assistir.

Héteros, não se façam de vítimas

Outro dia não consegui assistir um episódio da novela das 9 na Rede Globo. A cena em que o personagem hétero, branco, cis e ainda por cima rico descobria que o pai, se relaciona com um homem fora do seu casamento me incomodou muito. O rapaz chorava, gritava, acusava o pai do que ele considera quase um crime ou uma aberração (ou os dois), acusava e desrespeitava a mãe por saber da “traição”, depois sai de casa desnorteado, preocupado com o que será agora de sua vida, a imagem de sua família e seu restaurante e de quebra recebe o ombro da namorada compreensiva para chorar.

Pobre menino hétero, não é?

O pai estava tendo sua intimidade exposta, o rapaz com quem ele se relaciona também, além de, claro, todo o preconceito em cima disso. Mas o sofrimento que ganhou destaque, foi o filho.

Eu percebi que a intenção da novela não foi essa. O diálogo entre os pais do ~ pobre menino hétero ~ sugeria justamente que eles não aprovavam seu comportamento e o sofrimento de receber essa resposta revoltada do próprio filho. Mas pouco se mostrou e desenvolveu sobre isso.

Enfim, depois da cena lamentável, veio a notícia de que hackers estão ameaçando publicar supostas fotos de Emma Watson nua, como punição a seu discurso sobre feminismo no lançamento da campanhia HeForShe.

Justo quando recentemente reclamei que a mídia não aceitava Emma como feminista, ela discursa falando que não se deve temer a palavra e que os homens precisam desconstruir o seu machismo e ajudar as mulheres na luta por igualdade.

Mas aparentemente, alguns rapazes se sentiram “oprimidos” pelo discurso. Imagina, sair do seu lugar de posição privilegiada e lutar para acabar com isso? Então, além de não terem entendido a mensagem da atriz, ainda se acham no direito de punir-la.

Mais uma vez: pobres meninos héteros.

Acredito que Emma não se arrependeu de ter levantado o nome do movimento em seu discurso, só por causa das ameaças e eu também não retiro o que eu disse sobre “assumir” o feminismo e estarmos disposta a debater o assunto. Mas é aí que está a minha falha: achar que haveria debate.

Como se não bastasse toda a decepção que tive durante a semana, vejo amigos comentando sobre o jogo de futebol do domingo, Corinthians vs São Paulo, se referindo aos jogadores do último, como “gays”, “bichas” ou “moças”. Como se fosse ofensa.

(Não vou nem entrar no fato de que o racismo não tem sido tolerado por torcedores e mídias sobre futebol e esportes, quando os mesmos tratam outros preconceitos presentes nos estádios como se nem existíssem).

E então você tenta explicar que o que eles estão fazendo esta longe de uma piada de sobre futebol. E que é de muito mau gosto, utilizar a sexualidade ou o gênero de uma pessoa para diminuí-la ou ofende-la. E o que você recebe de volta, mais reclamação de opressão. Sim, de opressão! “Foi só uma piada”, “Nossa, você está  muito chata” e “Agora não pode mais brincar”, são as frases clássicas.

Tadinhos desses héteros, sendo privados do direito de fazer piada preconceituosa!

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Os homens atacam mulheres em lugares públicos, online e até mesmo quando elas nem estão presentes, por meio de ofensas morais e julgamentos pré-moldados pelo machismo. E o machismo é também o culpado pela homofobia. Quando debatemos, estamos exagerando, imaginando coisas ou ouvimos o tradicional “não foi isso que eu quis dizer”. Estou até hoje esperando uma resposta antropológica, social ou qualquer que seja boa o suficiente para a última.

E depois nós é que “nos fazemos de vítimas”. Então vamos esclarecer uma coisa: as mulheres cis, as mulheres trans, as mulheres negras, os gays, as lésbicas, os homes trans, e os homens negros somos sim as vítimas.

Vocês é quem se fazem de vítima.

Você que reclama que hoje em dia “não pode nem fazer um elogio pra mulher na rua mais”, que diz que “não tem nada contra homossexuais, desde que não se beijem em público ou na sua frente”. Você que usa seus amigos gays como máscara da sua homofobia, ou que mulheres não podem ocupar grandes cargos por causa de supostos problemas emocionais, além de muitas outras besteiras que eu nem consigo listas. Além de preconceituoso e machista, você está se fazendo de vítima.

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Você está se colocando como atingido pelo seu próprio preconceito, querendo privar as pessoas de viver como querem e respeitar o espaço delas só porque você não concorda com o jeito com que vivem. Assim como o rapaz da novela, que sofreu horrores ao saber sobre a sexualidade do pai, coisa que ele nem deveria se intrometer, por achar que ele passaria vergonha por isso. Mas não se dá conta que pessoas como ele mesmo é que alimentam esse tipo de reação da sociedade e que não é ele quem está sendo oprimido no caso.

Tente ponderar quem está sendo mais oprimido. Você que julga, violenta, humilha e exclui ou a pessoa que recebe tudo isso?

O que Emma Watson está fazendo é feminismo

Achei que deveria esclarecer.

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A exemplo da personagem que a tornou famosa para o mundo, a bruxa Hermione Granger da saga Harry Potter, Emma Watson tem se tornado uma grande ativista. Ela é hoje mais uma das famosas que representam a luta pelos direitos iguais entre homens e mulheres.

Emma é agora embaixadora da Boa Vontade da Onu Mulheres e apoiadora da campanhia HerForShe. Com ambas as instituições ela luta social e politicamente pelos direitos das mulheres e igualdade entre os sexos. O que numa tradução literal significa que Emma Watson está fazendo feminismo.

Assim como faz Beyoncé, outra das mais recentes incentivadoras e empoderadoras do feminismo, Emma utiliza sua imagem para ser uma representante do movimento feminista em prol da igualdade de gênero, e chamar atenção para isso.

E consegue. Uma das notícias mais divulgadas desde que assumiu o posto de embaixadora é que nesta semana visitou o Uruguai no momento em que o país discute a lei da paridade política, que deve garantir que no mínimo 30% das listas eleitorais em todas as eleições no país, sejam compostas por mulheres.

Mas ao contrário de Beyoncé, que faz suas manifestações feministas de forma independente (dando liberdade a ela de até estampar a palavra num dos letreiros do seu show durante Flawless, como vimos no VMAs desse ano), Emma está associando seu nome com instituições, que lhe deu um título e já possuem por si títulos oficiais, o que acaba escondendo o nome feminismo embora signifique o mesmo.

Não que isso seja negativo e anule a luta da Emma, nem mesmo a torna menos importante e efetiva do que a de Beyoncé e de outras artistas militantes. Cada mulher deve mesmo fazer o que pode em prol do movimento.

Ela ainda não misturou isso a sua arte (embora Hermione seja uma feminista nata e Emma defenda isso) mas não duvido que logo ela aceite um papel de uma mulher que represente muitas outras, além disso, ela já se “assumiu” feminista em diversas entrevistas.

Mas então porque eu me senti na obrigação de explicar que o que Emma Watson está fazendo é feminismo?

Porque por trás de seu título e todos os nomes oficiais que ela agora representa, além de seu comparecimento a eventos políticos super formais (onde como também é um ícone da moda, muitos veículos da mídia preferiram falar sobre o que ela vestia do que sobre o que ela fazia na ocasião), acaba fazendo com que o verdadeiro nome do movimento desapareça.

Encontrei poucas notícias que usava “feminismo” como uma palavra alternativa para descrever a causa de Emma ou “feminista” para descrever a própria atriz. Muitos acabavam repetindo palavras como “luta pela igualdade entre os sexos” ou dizendo que Emma é embaixadora três vezes num parágrafo só para não usar as verdadeiras nomenclaturas.

Claro que alguns veículos fizeram o contrário e assumiram a palavra feminista até mesmo no título de suas reportagens. Mas como fã de Harry Potter, e do trabalho de Emma, acompanho fanpages e sites dedicados a ambos, e é nesse que utilizam a máscara dos nomes oficiais. Os fãs (muitos nem devem entender muito bem o que é feminismo e poderiam ter a oportunidade a partir disso) dizem que a atriz é um grande exemplo por fazer o que faz, mas será que não haveria discussão se seu cargo fosse “embaixadora feminista”? Assim como há questionamentos e até repúdio ao feminismo mais “chamativo” de Beyoncé?

Não digo que fico muito feliz com as pessoas questionando o feminismo das mulheres baseadas em estereótipos, o meu último post aqui no blog já diz isso! Mas acredito que devemos ser mais claros com relação ao que é feminismo sempre. Emma está publiamente na luta justamente para promover o movimento, mesmo (ou principalmente) como porta-voz de instituições.

Pode ser uma visão pessimista da minha parte, mas se ainda há tantas pessoas leigas sobre o feminismo, a ponto de não associar os atos de Emma com a palavra devemos então utiliza-la mesmo que haja debate.

Se houver debate, que debatamos então! Hermione Granger e Emma Watson com certeza amariam isso.

Só me resta agora dizer que como fã da atriz, também me sinto muito orgulhosa de seu trabalho e militância, e que sua representatividade FEMINISTA é muito importante para todas nós.

Feminista demais

Um dos meus principais argumentos de defesa da existência do machismo e necessidade do feminismo em nossa sociedade é o “medidor de comportamento” que as pessoas utilizam, sobretudo (é claro) com as mulheres.

Como em outros quesitos na sua vida, as mulheres também passam por uma avaliação rigorosa de comportamento, aparência e escolhas quando aderem ao feminismo. Aparentemente, fica feio ser “feminista demais”.

O que ouvimos é que, ninguém quer tirar das mulheres a sua voz e espaço para lutar por seus direitos, menos ainda, priva-las disso, mas sem exageros, né? De preferência, devemos falar de militância somente nos nossos grupos, jamais sair as ruas em protesto, e menos ainda, privar os homens do seu direito de nascença de nos avaliar e falar suas bobagens machistas.

Se possível, deixar um homem falar sobre o assunto sempre, pois as mulheres se exaltam, reclamam, são loucas. Acabam ficando “feministas demais”. E claro, eles sempre têm uma opinião melhor para dar sobre qualquer questão.

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As vezes nos vemos discutindo entre si, feministas julgando umas as outras, mas dessa vez sobre ser “feminista de menos”. Esquecemos que nossos espaços são de acolhimento e principalmente de crescimento e aprendizado, e ao invés de abraçar e ensinar, julgamos.

Em alguns casos os extremos realmente atrapalham, mas o fato de existirem mulheres que levam a luta ao extremo (diante dos olhos machistas que julgam seu comportamento) só pode significar que ainda precisamos ser ouvidas.

Experimenta ouvir uma mulher, buscar grupos de militância feminina e ouvir. Ouvir mesmo, deixar os teus julgamentos de lado, pra você ver como não temos razão em sermos “demais”.

A maior prova de que precisamos do feminismo, é este tipo de julgamento comportamental e existêncial. A mulher pode ser gostosa, mas não gostosa demais. Deve ser independente, mas não independente demais. Pode ganhar bem, mas não ganhar a mais. Ser feminista, mas não feminista demais, dessas que falam, que lutam? Não, imagina!

Isso porque as mulheres “demais” assustam os homens, e ameaçam o seu posto alfa na sociedade. Repare que todos os “demais” que não podemos ser, é porque os os homens já os são, ou podem ser se quiserem!

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Se ser feminista demais é ser justa e buscar derrubar essa desigualdade para poder ser o que quiser, então eu sou feminista demais.

Ainda sobre o assunto, indico: “Não me diga como ser feminista”