Nós também não precisamos disso

Nessa semana, como em todas as outras, um link com uma “notícia” me deixou magoada e desmotivada. O Buzzfeed trazia evidências de que Beyoncé – que já foi (e sempre vai ser) pauta desse blog diversas vezes por causa da força de sua representatividade para as mulheres – usa photoshop em suas fotos divulgadas em suas mídias digitais, especialmente no Instagram.

Eu me senti solidária e novamente identificada com a Bey, que é uma mulher espetacular por dentro e por fora, e ainda assim demonstra insegurança, provando que ela é como todas nós somos. Que apesar de evidentemente gostar de si e do seu corpo, está também exposta e vulnerável a sentir necessidade de ser perfeita diante dos milhões de olhares voltados para ela. Pretty does hurt, Beyoncé.

E não é hipocrisia dela dizer isso. Todos os dias podemos sentir ou não a urgência de ficarmos bonitas. As vezes para si, as vezes aos olhos dos outros, o que a sua música especificamente critica, são os excessos, traumas e sofrimentos da busca pela perfeição.

Mas o que me magoou mesmo, e me fez “tomar as dores” da cantora a ponto de vir desabafar nesse texto, é a declaração do Buzzfeed: “Você não precisa disso, Beyoncé”.

Eu entendo que a intenção do site não foi maldosa, e que eles queriam justamente elevar a auto-estima da cantora, demonstrar que os fãs e quaisquer outros espectadores de suas fotografias a achariam linda de qualquer forma, e que ela é uma representante da aceitação pessoal, por isso não se esperaria isso dela.

Mas eu não consegui deixar de ver um problema nessa frase. E acredito que deveria ser esclarecido.

Não, a Beyoncé realmente não precisa de photoshop em suas fotos, ela é linda naturalmente. Assim como ela também não precisaria dos maravilhosos figurinos, maquiagem e cabelo perfeitos como ela utiliza nos shows, ela os usa por pura vontade.

Isso não quer dizer que todas as mulheres que curtem compartilhar fotos e selfies nas redes sociais precisam de photoshop. Não quer dizer que, eu, você, sua amiga, ou qualquer outra moça precise de photoshop só porque não parecemos a Beyoncé.

Antes de condenar a decisão da cantora (ou possivelmente da equipe de mídias digitais dela) de utilizar o photoshop, é preciso considerar o que cobram de nós, e dela mesma, mesmo quando levantamos a voz para combater essa cobrança.

Considerar também que se há a utilização desse recurso, é porque nossa voz de combate não está sendo ouvida.

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Assim como Beyoncé , nós também não precisamos disso.

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Pare de culpar as mulheres!

Sim, eu sei que eu deveria começar este post explicando porque dessa ausência enorme de posts no blog e porque este layout confuso que nunca sai de construção, mas eu preferi voltar a escrever aqui tratando de um assunto muito mais sério e urgente, a forte culpalização da mulher.

Recentemente uma pesquisa realizada pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) constatou, entre outros absurdos, que 65% dos brasileiros acreditam que  “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Sinceramente, a informação não me surpreendeu inicialmente. Quem participa de grupos de discussão e militância feminista sabe que a realidade é essa mesmo sem pesquisa.

Mas a pesquisa impactou muitas pessoas, muitas que talvez nunca tinham pensado no assunto e outras que eu já vi (pelo menos no meu convívio) julgando mulheres pela forma com que elas se vestem. Pensei como era interessante toda aquela manifestação e que seria incrível se esse choque de realidade fizesse as pessoas refletirem e concluírem que o culpado pelo estupro não é ninguém mais que o estuprador.

Em consequência a esta revolta, logo surgiram incríveis campanhas, como a que é vinculada nas redes sociais com a hashtag #NãoMereçoSerEstuprada ou a #SouMinha, que ganhou até tumblr. E que muitas pessoas que não movem um dedo em prol de nada, acham desnecessário por causa da exibição do corpo (porque faz todo o sentido protestar sobre a falta de liberdade de se vestir como quiser sem mostrar o corpo).

A primeira reclamação é a relação da mulher na pesquisa. Muitas pessoas “argumentam” que boa parte das pessoas que fazem parte da resposta que rendeu 65% dos votos, são mulheres, e quando eu ouço esta afirmação, eu só me pergunto: e dai?! Esta constatação muda de alguma forma os resultados da pesquisa? Não é mais preocupante ainda que as próprias mulheres pensem isso? Se elas pensam assim, já parou para pensar quantas delas já deixaram de frequentar lugares ou vestir determinadas roupas por causa deste pensamento? (Espera, a Campanha Chega de Fiu-Fiu já constatou esse número).

É claro que em uma sociedade regada pelo machismo, as mulheres vão acreditar na afirmação de resposta pela pesquisa, pois ela cresceu ouvindo como se portar e como se vestir para não ser atacada tanto quanto o homem cresceu aprendendo como ser o predador que agarra todas para manter sua “masculinidade”.  Por isso, nunca culpo a mulher pelo seu próprio machismo, ela só reproduz os discursos que escuta desde criança e não se beneficia em nada com isso.

E ainda é difícil demais pensar que os honrosos 35% dos entrevistados que não concordaram com a afirmação também tem mulheres no meio?

Quando eu torno a me perguntar “e daí?” eu só consigo constatar uma coisa: como é fácil culpar a mulher. A cabeça da sociedade já está inclinada para isso.

“A pesquisa que constata a culpa da mulher por sofrer violência sexual é também culpa da mulher”, fácil e não fere o orgulho de ninguém que possui esse pensamento machista e não tem a menor coragem de mudá-lo. É muito mais fácil resolver o problema varrendo para debaixo do tapete argumentando que as mulheres também pensam assim e ponto final, do que refletir um pouco e conversar com seus filhos e ensinar a não violentar, a não estuprar.

O outro brilhante argumento é que “a pesquisa foi muito tendenciosa”, mesmo que a pergunta tenha sido direcionada e tendenciosa, não vamos esquecer que ela dá a pessoa a opção de responder “sim” ou “não”.

Além disso, o que há a se argumentar? A pesquisa é sobre a falta de liberdade da mulher com o próprio corpo que é visto como objeto e abusado diariamente, já está constado o que as pessoas pensam disso, agora deve-se pensar em como combater isso (mesmo que hajam pessoas que acham que o comportamento dos estupradores é “justificável”).

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Como eu disse anteriormente, as campanhas e a educação são os melhores caminhos, e se você acha que #NãoMereceLerEstuprada, me desculpe, mas isso não é simplesmente algo que pode ser ignorado por causa de um capricho de uns e outros, a violência acontece e é comprovada, talvez se não existisse, não estaria incomodando. Na verdade #MerecerNãoSerEngada pelo IPEA é fingir que a violência não existe, e isso não vai mudar com, ou sem pesquisa. 

“Não seja um babaca”: A participação do homem no feminismo

Uma discussão que não deveria ser necessária sempre torna a ser tópico polêmico em coletivos e grupos feministas: a necessidade ou simplesmente a participação do homem no feminismo. Este ano o assunto voltou a ser tomado, por conta da relevação de que o Femen sempre foi comandado por um homem, ou quando o deputado Romário (sim, o ex-jogador de futebol), apresentou a lei contra pornografia de revanche, tornando-se voz, pelo menos na reportagem da Marie Claire, dessa luta feminina.

971193_383418875106938_1607974682_nSão dois exemplos muito diferente os que eu citei. De um lado, o Femen, que já não era muito do gosto das feministas e criava uma imagem absurda da mulher protestante e do outro um homem realmente fazendo algo para mudar uma situação crítica. Ou seja, de um lado, um homem que não entende nada de mulher e de feminismo achando (ou fingindo?) que sabe e tentando se manter na posição que a sociedade sempre lhe proporcionou, a de líder, e do outro um homem aproveitando uma posição na política para tentar realmente fazer algo útil, provavelmente por compreender a situação feminina sobre aquele assunto específico.

É difícil mesmo pensar no homem (o que é realmente privilegiado pelo patriarcado, o branco, heterossexual e de classe média) entendendo as aflições da mulher e porque o feminismo ainda é necessário. Por isso este vídeo – que prova que é possível – me chamou atenção esta semana.

O problema com relação ao vídeo é que não deveria chamar atenção, ou não deveria ser necessário ao menos. Mas a mensagem dada pelo feminista no vídeo, não só é válida, como… sincera.

É a mesma resposta que me deu o escritor – e feminista – Alex Castro em entrevista para o Hoje Acordei Amélia:

“Os homens são metade da humanidade e não dá pra resolver esses problemas sem eles. Os homens precisam se educar, ter consciência, parar de estuprar, essas coisas. Mas, dentro do feminismo, os homens precisam tomar muito cuidado para não assumir a postura paternalista de querer dizer às mulheres o que fazer. Isso não cabe aos homens. Temos que ser parceiros no feminismo, nunca protagonistas”. 

Além de produzir textos sobre feminismo para o Papo de Homem, (destaque para: “Feminismo para homens: Um curso rápido”) Castro lançou este ano o livro “Mulher de um homem só“, romance que reflete sobre os desafios da mulher moderna, com a narrativa da… mulher! Afinal, quem melhor para falar sobre seus próprios problemas?

Alex Castro | Foto por: Cláudia Regina
Alex Castro | Foto por: Cláudia Regina

O papel do homem no feminismo é simples, e o que faz todo este questionamento vir a tona é a insistência de homens do tipo do líder do Femén, que acham que podem comandar a causa. (A tal falsa ideia de igualdade a qual já debatemos aquiNão existe espaço para liderança do homem no feminismo, mas sim de participação. Além do dever de “não ser um babaca”, o que deveria ser obrigação de todos, dentro ou fora do feminismo.

Esclarecendo (porque não basta explicar apenas uma vez, claro). Não existir espaço para a liderança do homem no feminismo, não significa que o feminismo quer desbancar os homens da vida no geral e tirar suas posições de liderança, mas sim igualar a capacidade da mulher de liderar tanto quanto o homem em qualquer aspecto da vida – exemplos: contas da casa ou chefia no trabalho – , como explicou Alex na entrevista:

“Acredito que existe gente de tudo quanto é tipo nesse mundo. Mas se existem pessoas que querem ‘diminuir o homem e não igualizar os sexos’ essas pessoas, por definição, não são feministas. O feminismo é a busca por direitos iguais para as mulheres (enquanto o machismo é a dominação do homem sobre a mulher). Então, é preciso tomar cuidado para tratar esses termos como análogos. Uma ‘feminista’ que queira diminuir os homens é como um ‘comunista’ que acredita em livre-mercado: não faz sentido.”

“Mas se a mulher que se igualar ao homem nas lideranças e todas as atividades ‘da vida’ porque o homem não pode ser igual a mulher no feminismo e liderar?” É simples. O feminismo não é uma atividade “da vida”, é uma luta necessária para melhorar a vida. É uma luta das mulheres (e dos homens que queiram particpar) pelas mulheres, então cabe a elas liderarem e saberem quais são as necessidades.

“Mas o homem também sofre com o machismo”. Pois é, eu concordo, e até direcionei esta pergunta a Castro, que respondeu:

“Acho que é uma comparação até perigosa de se fazer. Embora os homens sofram com o machismo sim, ao serem limitados em papéis muito restritos e etc, as mulheres são mortas pelo machismo em altos números. Falar no pouco que sofrem os homens – ó coitadinhos duzôme – , é quase como jogar essas mulheres mortas pra debaixo do tapete de novo e de novo”.

Exato, o homem sofre com o machismo pois não há uma limitação sobre o que é ser “macho” segundo o patriarcado, se essa limitação não for exercidas, lá vem os esteriótipos e preconceito. Mas não há repressão, diminuição e mortes, como há para as mulheres. (Há no caso dos homens homossexuais, que não se encaixa na categoria de homem privilegiado que expliquei acima).

Mesmo o homem, até aquele favorecido, que entende as causas da luta da mulher por seus direitos, não as sentiu, por isso não pode liderá-las. Mas isso não significa que não ele não possa apoiá-las. Mesmo aquele que mudou de opinião, que era machista (difícil não nascer machista nessa sociedade) e descobre que não é assim que o mundo deve ser.

Em um coletivo que participo – e que aceita a participação dos homens – surgiu o tópico sobre este homem que “se converte” ao feminismo. Ele não era aceito pela maioria, por tudo o que já havia dito e feito.  Mas, como já falei aqui antes, se o feminismo quer mudanças na sociedade patriarcal, porque não mudarmos a todos? O homem pode não ser necessário ao feminismo, mas nunca será dispensável.

Então, ao homem que quer entender e apoiar o feminismo, seja bem-vindo a participar das lutas. Ao que teme se intitular feminista, que lide com o patriarcado da forma que ele o prejudica. Mas procure, no mínimo, não ser um babaca. Isso já é uma ajuda a causa.

Amélia assistiu (e assume): The Carrie Diaries

Sim! Eu assisti The Carrie Diaries assim como eu assisti Sex and the City, e adorei!

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Para quem não sabe, The Carrie Diaries conta a história da jornalista e escritora Carrie Bradshaw, personagem da famosa série da HBO, Sex and the City, aos 17 anos, antes de se tornar a Carrie Bradshaw. A série baseada no livro de mesmo nome, conta com o mesmo método da série de Carrie e suas amigas versão adulta (a narração de Carrie em seu diário), a história de como ela chega a Manhattan, começa no jornalismo e na moda, e o mais interessante, como era sua vida em Connecticut.

O melhor dos dois mundos:

Há uma eterna discordância se havia ou não feminismo em Sex and the City, e é claro que a série não se encaixava no Teste de Bechdel, – que eu não só compreendo a necessidade como apoio e tenho usado para testar praticamente tudo que eu assisto ultimamente –  mas isso não quer dizer que feministas não possam assistir algo que não passe e não possam usar temas abordados como tópicos de discussão.

Ok, os tópicos discutidos em sua maioria, não eram exatamente o sexo ou a cidade em particular, como sugere o título, mas sim, homens, o sexo com os homens e estar com os homens. Toda essa atenção as vezes entediava um pouco, e eu ficava muito mais interessada na carreira das protagonistas, ou somente na vida da independente e livre Samantha Jones.

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Mas muitas vezes a série tratava simplesmente da sexualidade da mulher e a gente nem percebia. Eu pelo menos, não esqueço da história do Rabbit Vibrator em particular.

É mesmo muito triste ver como a maioria das mídias direciona a mulher a somente pensar no homem – mesmo que em Sex and the City, haja tanto questionamento sobre estar ou não, casar ou não, ter filhos ou não com o homem – mas isso não significa que não possamos ou não queiramos ver algo que trate disso. Mesmo que o ideal seria uma série a cada dez com outros temas mais interessantes, no fim das contas, Sex and the City acaba sendo sobre –  quem diria? – as escolhas da mulher.

The Carrie Diaries me encantou pois, acredite ou não, explora todos os assuntos que você esperava em Sex and the City, só que com uma linguagem adolescente e um clima anos 80 incrível (o que são aquelas roupas e trilha sonora?). O amor de Carrie pela cidade, e todo o desenvolvimento desse “relacionamento”, as descobertas de uma menina de uma cidade pequena em um lugar populoso e cheio de mistérios. Também suas descobertas em relação a carreira e ao futuro, e como escalou de estagiária até a famosa colunista que se tornaria. Seu valor pelas amizades e o encanto por descobrir novas pessoas. E claro, como lida com os amores, se na série da Carrie adulta havia altos e baixos, imagine então com uma Carrie virgem e cheia de descobertas.

THE CARRIE DIARIES

Não que a Carrie de 17 anos seja diferente da Carrie original, ao contrário. AnnaSophia Robb interpreta a mesma Carrie apaixonada por moda e até sua narrativa são parecidas com a da personagem original, a jovem atriz com certeza fez uma pesquisa bem aprofundada da Carrie vivida por Sarah Jessica Parker antes de encarar um personagem tão icônico, e está certíssima. No roteiro até algumas tiradas clássicas de Bradshaw são incluídas, como seu amor por martini, sua habilidade de desmaiar nos braços do homem que ama, o jeito com que escreve de frente para a janela e outros detalhes.

E se for pra continuar com comparações, a série ficou ainda mais legal depois que Samantha Jones entrou em cena (aparentemente a cada temporada, uma amiga do quarteto entrará). Se AnnaSophia já caprichava com sua nova Carrie, Lindsey Gort encarnou Samantha. Além de parecerem fisicamente, Gort consegue replicar todos os trejeitos, da personagem original vivida por Kim Cattrall.

Aparentemente, The Carrie Diaries está sendo até um pouco mais fiel e aberta a histórias diferentes do que o desejo por homem, e tenta justificar o porque, na idade adulta, Carrie Bradshaw, Samantha Jones, Charlotte York e Miranda Hobbes com suas carreiras consolidadas, tinham apenas esta preocupação. (Claro que isto não é justificativa. Este último parágrafo foi uma crítica completamente imparcial com o fato de eu gostar ou não da série.)

city1Na segunda temporada, o assunto virgindade deixa de ser um tabú, e coisas mais sérias começam a ser discutidas dentro e fora da trama.

The Carrie Diaries:

Este trecho vai conter muitos spoilers!!!

Na primeira temporada a questão do senso comum em uma cidade pequena já começa a aparecer como problema, Carrie começa tendo que lidar não só com o problema de ter perdido a mãe, como também com o fato de que todos estariam falando disso e apontando dedos sobre seu estado emocional. Depois como a irmã mais nova lida com o fato de passar a ser criada somente pelo pai, o que ainda parecia ser um grande tabú, e que Tom Bradshaw tenta superar, tanto da parte da cidade, quanto de seus próprios preconceitos.

Todo o julgamento ainda continua quando Sebastian Kydd chega na cidade depois de ser expulso da última escola que estudou por ter se envolvido com uma professora. O bad boy, julgado e mal olhado por todos os adultos da cidade, que não querem influenciar mal seus filhos. E ainda há toda a relutância de Walt em assumir que é gay até para si mesmo e a reação absurda de Mags.

Sempre achei que Maggie era o maior símbolo da ignorância da cidade, pois ela praticava e sentia de volta toda agressividade e julgamento. A reação homofóbica e agressiva (ok, agora usei pleonasmo) a descoberta da homossexualidade do namorado e a forma com que se deixa influência pela baixa expectativa de sua família para seu futuro não são culpa da personagem, mas sim da atmosfera machista a qual é criada. No episódio em que descobre que está grávida (eu disse que teria spoilers!), Maggie diz a Sebastian que para ela o destino de um homem é tornar-se policial e o da mulher, mãe.

Depois que descobre a gravidez, teme em contar aos pais e recebe uma resposta ignorante e machista do homem que mentiu a ela. Maggie é só mais uma menina enganada, imatura e inconsequente talvez, mas influenciada principalmente.

Até a atriz que interpreta Maggie se pronunciou sobre as reações ao destino de Maggie na série.

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O roteiro da série tenta fortemente mostrar sua posição diante das discussões expostas, desde a forma com a homossexualidade de Walt é aceita aos poucos por ele mesmo e o quão parece absurdo ele ter de agir diferente para agradar as pessoas, por exemplo. E na situação de Maggie não é diferente. Desde o envolvimento com Sebastian, há o ponto de vista da traída Carrie, o de Maggie e o dele. O próprio personagem é posto a assumir a culpa, Sebastian sempre repete que perdeu Carrie por causa do beijo com Maggie, mas ainda assim, é somente ela quem sofre os apontamentos, e claro que não seria diferente com relação a sua gravidez.

Para uma série que fala a meninas adolescentes sobre assuntos tão pouco discutidos em suas próprias casas, The Carrie Diaries tem tido uma postura positiva. Não é por falta de tentativas de mostrar o lado da mulher julgada, do pai inexperiente e do fato de que não deveria ser e muitos outros detalhes.

Se as séries são feministas ou não, particularmente acredito que esta discussão sempre irá existir. Há motivos para acreditar que sim e que não, como eu já disse. Mas estou fazendo minha parte usando os plots das séries para questionar a mim mesma e a reação do público. Te convido a usarmos esses questionamentos para discussões saudáveis, que tal?

Por que o feminismo precisa da Beyonce?

Para responder o questionamento feito no título, eu poderia usar uma simples resposta: Porque o feminismo precisa de todas as mulheres, de tudo o que elas podem e da maneira que podem dar pela causa e todas com o mesmo grau de importância. Por isso nunca descarto uma mulher que cresceu desacreditando na necessidade do feminismo e depois mudou de opinião, e até mesmo o homem machista que se arrependeu de seus julgamentos e atitudes. O feminismo é isso mesmo, é transformação, é mudar o pensamento antigo das pessoas em prol de um mundo igualitário.

Não que Beyoncé nunca tenha sido feminista e se tornou agora. Ou, segundo muitas críticas, ela não é feminista o suficiente, então quer dizer que agora há uma medição de sua capacidade feminista? O nome de sua turnê e a forma com que se veste e mostra sua sexualidade não deveriam ser um problema, e feministas deveriam saber disso.

Não só não é um problema, como é também muito válido, ver uma mulher bem sucedida conquistar tudo em sua carreira longe da sombra do marido, e melhor ainda, conseguindo distinguir sua carreira da dele independente de parcerias que façam na música. Beyoncé é um nome, Jay-z é outro. Ver que ela emprega muito mais mulheres no meio musical do que qualquer outro artista e que todo o seu discurso sobre sexualidade é para as mulheres, para que saibamos que nós a possuímos sim e não é pecado. Então, o que exatamente Beyoncé faz que não é feminista?

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Será que tomar o nome do marido na certidão de casamento anula todos esses fatores já citados? Feminismo não é sobre escolha? Achei que eu podia escolher ou não ter o nome do meu marido, assim como Beyoncé escolheu que sim. Ou será que o que anula o feminismo nela é ter encontrado a felicidade no casamento e na maternidade? Mais uma vez, achei que feminismo fosse a liberdade, a escolha de ter isso ou não na minha vida. Se me casar não me fará feliz porque eu faria isso? Mas se faz Beyoncé feliz, quem somos nós para julgar? Estamos aqui para julgar?

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A resposta da Queen B:

Não bastasse toda essa carreira e todo o “Who run the world? Girls!” gritado com vontade nos shows, Beyoncé, como se precisasse nos provar algo, lança um CD totalmente inesperado, da noite para o dia, literalmente.

Na madrugada do dia 13, Beyoncé publicou um vídeo na sua conta do Instagram onde anunciou não só 14 músicas novas, como 17 vídeos fresquinhos. Dois deles (pelo menos os que eu achei, se tiver mais me avisem), gravados no Brasil, na sua passagem pelo Rock in Rio desse ano. Nenhuma música vazou, nenhuma foto de uma suposta gravação de clipe. Tudo impecável e novo para os fãs.

E não foi só o lançamento que foi brilhante. As letras do disco que leva seu nome, são todas dignas de uma feminista orgulhosa, que quer defender a causa até o fim e influenciar seus fãs a refletir sobre. Como eu disse no início do texto, cada mulher é necessária a causa da forma que lhe cabe ajudar e todas têm o mesmo grau de importância. Esta é a forma que Beyoncé encontra de ajudar o feminismo.

Principalmente pois dessa forma, ela ainda consegue quebrar todos os estereótipos de que há algo negativo nas idelogias do feminismo, todas as ideias pré formadas e que tanto nos esforçamos em mostrar que é o contrário. E tudo sem hipocrisia.

Há quem ache que existe (infelizmente), mas não existe hipocrisia em uma mulher linda e saudável mostrar o quão sofremos para alcançar essa tal perfeição que a mídia nos vende, mas não existe, como ela faz em Pretty Hurts, nos dizendo que nem ela, nem você têm a obrigação de ser perfeita, e que essa tentativa machuca. E desculpem, mas não há hipocrisia em ver uma mulher que já conhece os desafios do casamento e defende sua felicidade nele dizer que ninguém precisa disso para ser bem sucedida na vida, como disse em Flawless. Faixa esta que merece seus méritos.

Em Flawless, Beyoncé trás a antes lançada como Bow Down remixada com uma participação especial: Ela adiciona as falas da autora do livro “Americanah”, Chimamanda Ngozi Adichie, em seu belo discurso “We Should All Be Feminists”. As falas de uma completam as da outra e olha… me emocionou.

Beyoncé não só é feminista como se importa com as mulheres que ouvem sua música. O casamento de sua música com o discurso de Chimamanda é a prova disso. E quando decidimos que a vida particular de uma mulher são da nossa conta a ponto de formamos uma opinião sobre sua personalidade e censurar suas escolhas, não estamos sendo feministas.

O último post sobre o Tubby (ESPERO!)

Porque este assunto já estava cansando meu cérebro e minha paciência, eu ia deixa-lo de lado. Mas eis que os criadores do “aplicativo” Tubby lançam um comunicado esclarecendo tudo, e ainda assim, trollando a situação. Para entender a real mensagem, é preciso ativar a legenda em português do youtube do vídeo abaixo:

Favor assista o video todo pra eu entender o resto do texto 😉

Sim, o Tubby é uma trollagem! Eu acreditei, você acreditou, a mídia acreditou, a justiça brasileira acreditou, e claro, aquele seu amigo machista também acreditou. Acreditaram que aqueles absurdos de classificações existiam e que as pessoas poderiam julgar as outras livremente, como acreditamos com o Lulu.

Eu não vou deixar de reafirmar o que já disse antes, o Tubby realmente acendeu discussões absurdas, e despertou aquela falsa ideia de igualdade. O suposto aplicativo era só a ponta do iceberg de um mundo sexista que sempre julgou, humilhou e classificou as pessoas. E também não retiro o que eu disse, que o Lulu não é uma atitude feminista, não é uma forma de se vingar, não é assim que se ensina aos homens que não é correto classificar mulheres como “pra casar”, “pra pegar” ou qualquer outra coisa estúpida que se acha normal.

Porém parece que para alguns a ficha caiu, e isso é muito bom. Não retiro também o que eu disse sobre o fato das mulheres serem classificadas em diversos lugares, e eu entendi pelo video que os autores do Tubby querem acabar com isso fora e dentro da internet, e espero que seja assim.

Infelizmente, o homem precisou ser ofendido pelo Lulu para que essa questão de classificar ou não o ser humano seja levantada, enquanto a mulher passa por isso todos os dias, mas se tivesse que ser assim para que toda essa palhaçada vinda de ambos os sexos parasse, então que seja.

Fake ou não, o Tubby serviu para reacender não só a discussão sobre igualdade entre homem e mulher como também essa nossa mania infantil de classificar as pessoas. Foi uma ótima resposta ao Lulu, resposta que as mulheres que aderiram mereceram, sim e resposta ao machistas que achavam que aquelas hashtags absurdas do Tubby eram só uma “brincadeirinha” e não se tocavam o quão ofensivas e perigosas poderiam ser. Foi uma resposta a sociedade que acha que tudo isso é normal.

Parece que os criadores conseguiram criticar toda a situação em uma trollagem só: as mulheres que aderiram ao Lulu como forma de vingança por toda a opressão que sofrem desde sempre, e aos homens que se sentiram revoltados e gostariam de revidar dessa forma ainda mais baixa. O Tubby chamou a todos nós de ridículos.

Num mundo ideal, ninguém precisaria julgar ninguém, ninguém precisaria dessa artimanha de criar um aplicativo, as pessoas conversariam entre si com sinceridade sem ter que interpretar atitudes, falas e até roupas umas das outras para chegar  a uma conclusão sobre o carater de alguém. Num mundo ideal o caráter de alguém ser negativo ou positivo não influenciaria na sua vida, você simplesmente viveria a sua sem se intrometer na do outro e vice-versa. Num mundo ideal, a vida sexual de uma pessoa deveria ser respeitada e particular somente dela. Num mundo ideal as pessoas perceberiam que praticam Tubby e Lulu todos os dias evitariam isso para ter uma mente mais sã.

Bom, vou parar por aqui, porque já está soando muito musica do Alladin né? O que vocês acharam da jogada dos criadores do Tubby?

Tubby e a falsa ideia de igualdade

Depois de um longo e explicativo post sobre toda a problemática do Lulu, pensei que não teria que tornar a falar sobre a febre de aplicativos fúteis que se dizem no direito de classificar alguém. Mas eis que o Tubbby – a versão do Lulu para homens (pois é…) – é criado, e permite o cadastro prévio, e o assunto volta a tona.

A criação do Tubby só nos prova o que já disse no post anterior. Nada dessas brincadeirinhas de mal gosto nos coloca, homens e mulheres, em pé de igualdade. Avaliar um cara no Lulu em troca por ter te chamado de vadia por ter ficado com mais de um cara em uma noite, não rebate ou anula este comentário dele. Fazer os homens sentirem na pele a opressão sentida pela mulher desde o seu nascimento, não é uma forma de ensiná-los o quanto classificar alguém é errado.

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E a prova de que os homens não aprenderam a lição através do Lulu é a própria criação da sua versão oposta. O que acontece no app, acontece com as mulheres todos os dias, mas toda essa problemática de objetificar alguém só tornou-se tão polêmica depois que o homem sentiu na pele a tal objetificação.

Tal objetificação do homem se dá por meio de hashtags como #ValeMenosQuePãoNaChapa, #NãoSeDaBemComMinhasAmigas, #NãoÉUmBabaca, enquanto na hora de julgar a mulher está sendo traduzida para o Tubby da forma mais machista e absurda.

luluNão estou defendendo o Lulu com o argumento de que o Tubby é pior, estou dizendo que o fato de o Tubby ser pior, é por causa de um machista encravado na sociedade e que as pessoas insistem em dizer que não existe.

Enquanto o Lulu só usava hashtags de teor sexual para avaliações positivas (a #NãoFazNemCosquinha foi retirada do aplicativo por não ser considerada a proposta da brincadeira) já surgiram spoilers de hashtags como #DaPraTodoMUndo como negativa e (pasme!) #AnalVoluntário como positiva.

Com essas e outras hashtags o aplicativo insinua que o anal involuntário é necessário em determinadas situações e que acontece, que a mulher não tem a liberdade de transar com quem quiser, que se ela não quiser ser julgada que não faça nada disso. Engraçado, onde é que eu já ouvi esses argumentos antes? Ah é! Na sociedade patriarcal! 

O fato do Lulu ter sido recebido como uma vingança para mulheres que foram julgadas é prova de que não há igualdade. Os homens terem ficado ofendidos com o que, inicialmente era só uma brincadeirinha fútil, prova que eles nunca tinham sido oprimidos antes, ao contrário das mulheres, prova, que não há igualdade. As hashtags grosseiras do Tubby, é a prova de que não há igualdade.

Todos os comentários preconceituosos e violentos que existem (ou existirão) no Tubby foram transferidos da vida real para o aplicativo. Julgar uma mulher pela quantidade de parceiros que ela já teve e todos os outros motivos pelo qual o Tubby se baseia não é coisa nova, coisa moderna de aplicativo criado em 2013, não.

Enquanto o homem fica “mal-falado” por usar um sapato feio e comer muito fast-food, a mulher que for “bem-avaliada” porque #curtetapas ou #engoletudo, não vai poder sair na rua sem ser fortemente criticada e sofrerá uma opressão pesada, assim como acontece com meninas que aparecem fazendo (ó, que absurdo!) sexo em vídeos divulgados na internet.

Fonte: Não Aguento Quando
Fonte: Não Aguento Quando

A teoria do “Quem não deve não teme” também surgiu depois dos problemas com descadastro do aplicativo, que as mulheres tentaram fazer desde que o site supostamente disse que era permitido.

(Já que no Lulu existe este recurso, muitas mulheres tentaram, mas o aplicativo realiza o processo de forma duvidosa, pedindo que você disponibilize informações a ele. Eu tentei acreditar que não havia como prometerem que se pode negar ser avaliada, mas na verdade não existe essa opção, seria muito antiético, mas aparentemente é isso mesmo).

Mais uma vez, assim como na vida real, não se tem escolha. Para você, o que a mulher lhe deve? Satisfação? Castidade? Pureza? Respeito?. Então a mulher que segue todas as regras patriarcais sobre como ser uma mulher, não deve mesmo se preocupar com o Tubby.

Você já parou para pensar que toda essa polêmica, discussão e revolta é por causa de uma brincadeira infantil? De ambas as partes, é claro. As mulheres começaram julgando com hashtags infantis, vazias e fúteis, os homens, que nunca sentiram uma massa os criticando publicamente, se sentiram extremamente ofendidos, mas não estão necessariamente rebatendo de forma injusta por suas classificações serem mais “pesadas” que as das mulheres, eles estão rebatendo da forma que foram ensinados a classificar o sexo oposto desde criança e como nunca tiveram essa ideia amadurecida, deu no que deu. “Nossa, ela disse que eu sou #UmCopoMeioVazio, nunca fui tão ofendido! Vou rebater com uma hashtag que a classifique bem mal, já sei: #DaNoPrimeiroDia”.

Estou falando e estou preocupada com essas atitudes infantis por causa da falsa ideia de igualdade que existe nas pessoas, de que o homem tem todo o direito de ter as mesmas coisas que as mulheres, porque já somos livres. Isso vai muito além de um aplicativo de layout rosa e outro de layout azul. Isso vai longe, quando dizem que se mulher tem delegacia, homem também tem que ter  – porque é no Lulu que diz que existe o hábito de fazer sexo involuntário, né?. Quando dizem que a lei Maria da Penha não é necessária pois da muita liberdade as mulheres – por isso as que #ApanhamDemais têm que ser valorizadas né? E muitas ideias vazias de que a mulher não é oprimida, e que na verdade, oprime por causa de um aplicativo inventado em 2013, esquecendo completamente do passado absurdo que carregamos nas costas até hoje.

E sobre a ideia de classificar alguém no geral: PAREM COM ISSO! Está na hora de aprendermos a sacar o telefone, ligar para a pessoa, marcar um encontro, conversar, ouvir e depois concluir o que achou e dar um rumo aquele encontro, não é?